o lixo e a cidade

Hoje passando pelo centro me senti numa sexta-feira em final de expediente, quando as montanhas de lixo ocupam as vias comerciais e históricas da cidade, catadores separando em pilhas papéis de um lado, plásticos de outro, latas, garrafas de outro e pegando o nojo dos restos de comidas esparramando o suco gástrico do estômago urbano.

Hoje não era dia dessa “seleção da coleta”, ao menos não entrei pelas ruelas vendo corpos metidos entre sacos separando lixo coletado. Mas havia um, cada vez mais habitual, cheiro de podre pelas ruas. O cheiro é do ralo sim, mas também é das galerias, é das lanchonetes, é das faxadas mijadas, dos becos, é das pessoas. A cidade fede cada vez mais, de manhã, de tarde e de noite, coitados dos que dormem nas ruas, nem devem mais sentir nada.

Fiquei realmente espantado com a quantidade de lixo que não é habitual em uma segunda-feira. Cada vez mais o lixo cresce, as carroças dos catadores está superfaturada, são montanas ambulantes, monumentos aos caos, esculturas-retratos de nossa medíocre existência. A quantidade de lixo cresce em proporção muito maior em relação a proporção em que cresce a cidade. Se formos realmente tentar calcular quantas toneladas de lixo produzimos por dia contra a quilometragem quadrada de área construída da cidade, acho que ficaríamos pasmos e passaríamos do prazo de validade.

Os rios que cortam o cenário urbano hoje já não passam de canais, e desemboques de esgotos à céu aberto ou por galerias encobertas para esconder a feiura que sai das nossas privadas. São Sebastião do Lixo de Janeiro, olhai por essa cidade que carrega, com vergonha, seu nome. Cidade-pet, cidade formada por garrafas de todos tipos de bebidas, formada por caixas de feira de madeira, latinhas de alumínio, formada de todos os tipos de papéis, plásticos…

A “urbanização” consome subindo morros, é aonde a teia urbana consegue crescer, e onde a falta de poder aquisitivo permite, ou onde o descaso público, político e social se esquece de estender as mãos. Destruimos morros, botamos à baixo, aterramos mares, construímos barreiras, mudamos de tal forma o cenário natural, a paisagem, que hoje é perfeitamente possível entender porque tantas e cada vez mais as pessoas fazem plásticas, que é muito mais fácil, simples, rápido e barato do que construir um novo e sem sentido Aterro  para embelezar e amansar a orla. Em conpensação crescem as montanhas de sacos de lixo pelas ruas, crescem os aterros sanitários, que não passam de absurdas insanidades.

A cidade está cada vez mais quente, e isso faz cozinhar e feder cada vez mais e pior esse caldo de lixo podre nas caçambas e caminhões de lixo. Esse chorume corre nas veias e avenidas urbanas, gruda nos nossos tênis, fica na nossa mente que banho algum é capaz de tirar.

É lamentável mesmo, mas cada um de nós produz muitos sacos de lixo, que pode ou não ser reaproveitado. Mas no final, nós é que acabaremos no saco preto, nossa última contribuição para o nosso lixo urbano de cada dia.

Anúncios

4 pensamentos sobre “o lixo e a cidade

  1. Tem certas invenções que de tão boas acabam sendo uma arma a humanidade… quem inventou as pets nem saberia onde que chegaria, mas venhamos e convenhamos isso é só uma desculpa para a falta de educação da humanidade, para a forma errada, desapropriada e desalinhada de ver o mundo. Tem coisas que deveriam ser obrigadas a ser ensinadas no ensino fundamental e uma delas é a separação do lixo… tem coisas que o governo deveria incentivar mais como a reciclagem… mas fazer o que nessa guerra é cada um sozinho com sua consciência.

    Abçs meu caro,

    Novo Dogma:
    reiNo…

    dogMas…
    dos atos, fatos e mitos…

    http://do-gmas.blogspot.com/

  2. Valeu Lia. Foi um misto de revolta com desilusão, desabafo com preocupação.

    Valeu Thiago. Acho que no final viraremos lixo mesmo… alguns são lixos em vida mesmos, rsrsrs. Enfim, espero que possamos melhorar isso.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s