o relojoeiro

Todo dia, há décadas (há quem diga que sejam séculos), cabelos já ralos, mas elegantemente brancos, sob um boina bege xadrez super charmosa, ele monta sua banquinha de madeira, que em outrora fora nobre, na esquina de uma rua pacata, sob a sombra de uma árvore em frente a um sobrado. O simpático senhor, sempre com seu sorriso contagiante, é atencioso mesmo com os não-clientes, e adora crianças, daquelas de shortes curtos, boné, chupando bala ou pirulito, com seus balões de gás passeando de mãos dados com os pais.

É daqueles senhores do tempo que filho herdava do pai nome bem parecido ou igual, se seu avô fosse José, seu pai seria João e ele novamente José, e assim até hoje os clientes/amigos e passantes na rua, que ao o ver todo dia já são íntimos, sempre o chamam ou de João ou de José, e está sempre tudo bem. Sempre a mesma aparente pele de idade avançada, mas lisa e bem cuidada, pois alimentação boa e balanceada, bons hábitos e costumes sempre o acompanharam. Seus olhos não são do tipo cansados, mas pequenos e brilham como de criança, suas mãos são de pele incrivelmente aveludada e macias, delicadas, que ajudam no seu ofício preciso e refinado, mesmo que seja uma simples troca de sobrevida/bateria de relógio barato, até reparos mais complexos em pequenas engrenagens.

Mesmo que os passantes não tivessem bateria para trocar ou reparos em suas caixas metálicas, plásticas, importados ou de camelô, nem interesse por colocar pulseiras novas em seus relógios, até mesmo os que não os tinhas, sempre paravam para conferir as horas. Para ele não havia hora errada ou certa, o tempo medido a cada segundo, há tanto tempo já era seu fiel amigo e companheiro, não mais o media, o acompanhava com muito gosto, pouco importando se eram dez para alguma hora ou vinte para dia ou noite, os ponteiros lhe contavam muito mais histórias.

Daquela velha história de José e João, e José novamente, agora sim, realmente se confirmavam séculos que aquela velha banquinha repousava sob aquela sombra em frente ao sobrado. Até a aparência era a mesma, e tantas e tantas avós, filhos e netos continuavam acreditando que José era João e sempre foi apenas e somente um, eterno companheiro do tempo, que nunca acaba.

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