o atelier mágico

Era como uma aparição, um ser que ninguém sabe quando, como e nem de onde veio. Mas não era nem de longe ofensivo ou de despertar qualquer espanto ou medo. Seus olhos quase sempre brilhavam, e isso com certeza já dizia muita coisa, é como se compartilhasse boa vida, boas vindas, junto com seu sorriso simples de lábios leves.

Suas vestes eram simples, como toda construção de seu corpo, de aparência igualmente simples, mas cheio de dúvidas e complexidades, descobertas que só alguns se permitem ainda carregar e conviver pacificamente. Suas mãos delicadas, como de anjos, premiadas e dotadas de paciência e requinte, que só o talento de cabeça e coração, corpo e alma sabem se conectar de forma clara. Poucos acreditavam fisicamente que ele exista, e raros são aqueles que o viram em alguma oportunidade. Um recluso, talvez por opção, talvez por timidez ou talvez por uma entrega maior. Quase não falava, às vezes até com ele mesmo, não que não gostasse das pessoas, mas sua maior intimidade era com seu ofício.

Sua oficina, repleta de vida, sempre foi sua maior obra, seu castelo, fortaleza, seu impecável e ao mesmo tempo imperfeitamente lindo atelier mágico. Onde nasciam suas obras, onde passava horas, dias, semanas… uma vida inteira dedicada a reunir vidas potenciais em novas vidas agrupadas. Não se dizia um criador, mas um artesão capaz de conectar e fazer as ligações necessárias para daí então produzir obras de arte, matéria, suportes para que outros impressionassem e expusessem suas artes. Cada folha de papel vem de uma história, cada cor é uma pincelada no arco-íris de chances, enredos, contextos em que cada palavra, cada letra, cada pintura, cada ilustração pode se deliciar e repousar. Aquele artesão encadernador dedicava sua vida e sua arte como meio para que outros transformassem livremente deixando brotar, cada um, suas matizes de pensamentos e expressões.

Ele saía para acompanhar cada entrega, mas ficava escondido atrás de uma árvore, poste ou coisa que lhe valesse de esconderijo, gostava de ver a reação das pessoas ao serem surpreendidas, por elas mesmas… Nunca entregava pessoalmente, se reservava ao ofício de encantar aquelas páginas, costurando pensamentos e boas energias entre cada passada, com sua agulha e instrumentos, para ele preciosos. Tinha fiéis e sorridentes ajudantes, cuja missão era a de entregar cada caderno a seu entusiasta destinatário, exatamente no local certo e na hora desejada. Nem eles mesmos sabiam que hora era essa, mas que estava justamente conectada ao desejo íntimo do receptor. Num sonho, ao tomar café pela manhã, ou no ponto de ônibus, não importava, quando o desejo fosse íntimo e sincero, lá estaria o ajudante, de roupas impecavelmente limpas, com um escoteiro, a estender na mão um pacote e um sorriso encantador dizendo: aqui está seu caderno mágico, foi feito especialmente para você. Pronto, bastava isso para que o caderno ganhasse a força de um filho ao ser pego nos braços pelo pai. E o artesão sentia-se feliz, sempre, como se fosse a primeira vez. Isso o alimenta a cada dia, e assim o será.

~   ~   ~

> Gostou? Veja também: o relojoeiro

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6 pensamentos sobre “o atelier mágico

  1. O arquétipo do mago se une ao criador em uma pequena e auto-descritiva fábula, cheia de magia, encatamento e lirismo.

    O artesão das formas que consegue ver além do Véu de Ísis,
    aquilo que só faz sentido senão em um mundo perfeito, ideal,
    e possível, tão possível, quanto era voar a um grego sonhador,
    ou a um italiano de alma holística. Sim, além do Véu de Ísis,
    desse mundo das formas, no mundo das idéias, termo tão platônico,
    todas as coisas respiram melhor, mais e de forma maior.

    Todo ar se torna rarefeito porque é desnecessário o excesso,
    e toda flor é mais delicada, a linha mais suave, o traço mais belo.

    Tudo flui e tudo é luminoso.

    Acho que é um pouco disso não? Ver em um vislumbre esse universo
    maior e melhor é o suficiente para dar sentido a uma vida, e iniciar
    o ignorante e bruto homem em um caminho verdadeiramente angelical.

    E humanamente possível.

    • E humanamente possível, sonhar e desejar. Idealizar é então um objetivo… ou um meio? É uma descoberta legal.

      Obrigado, meu amigo. =)

  2. a identificação é o que une os mais variados tipos de ‘gentes’, e a arte, independente de qual seja, torna essa união, além de mais estreita, encantadora!

    ser parte de um ofício que proporciona o prazer dobrado, ao se trabalhar com o que será a mídia para imaginação alheia é, embora alguns neguem, de uma responsabilidade grande… se acreditamos que energia move e é passada, então é necessário usar a melhor possível para poder, assim, ofertar a melhor possível!

    percebo que não sou o único colecionar do sorrisos e fico bem feliz de um, dessa espécia em quase extinção, fazer parte do meu ciclo pessoal!

    parabéns pelo texto (como sempre!), camarada!

    • Valeu, meu grande amigo Johnny.

      Esse texto me veio a cabeça super por acaso, acho que estava no ônibus voltando da casa da Lili para minha casa. E sabe, adoro quando me vêem esses textos que me fazer sorrir sozinho, de felicidade pura, é tão bom.

      Sei lá, qualquer comparação com a realidade é mera aspiração a essa quase perfeição que eu gostaria de atingir, um pouco.

      =)

  3. Apenas INCRÍVEL!…
    e eu sei o que é receber uma arte linda feita nesse “Atelier mágico”! rs
    esse Atelier fica na mesma rua do “Kammi Atelier” sabia?! …no mesmo universo de encantamento e amor pela arte!!! =) rsrs

    Rogério, parabéns pelo texto!

    e obrigada por me dar a honra de ter um lindo registro do meu mundo sonhos (meu sketchbook)!!!

    bju grande!

    • Nanda, obrigado pelo seu lindo comentário. Fico muito feliz.

      Quero que um dia meu atelier seja assim, não custa sonhar. Se eu tiver um pouquinho disso, já me darei por muito como feliz.

      Bj.

      =)

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