o desconhecido

… tinha era muito medo, pois não se conhecia nem um pouco, não conseguia enxergar a si mesmo.

Enquanto isso no ônibus:

(do outro lado da linha)
— “… mas tive que sair mais cedo para atender…”
(trocador)
— Não me importa, te contrato até as 10 (blá blá) e não quero (blá blá) Vou ligar … 10 pra saber se você … e quero falar com você (… blá blá blá)
(3)
— “Lista de supermercado: couve, tomate, cebola, alho, pimentão, sabão em pó e chocolate. Passar na escola, pegar meu garotinho lindo e levar na casa da mamãe. =)”
(ao seu lado)
— (… blá blá blá)

Carregava uma bolsa a tira colo há 3 anos, andarilho dos ônibus, mas nunca a abria. Não sabia sequer seu conteúdo, e se um dia soube, já havia esquecido. Olhar muito distante, nem ele sabia porque, de tanta tristeza teve que buscar uma nova forma de ver a vida. Nunca falava com ninguém, mas não era mudo. Não ouvia dos outros ao seu redor coisas que fizessem sentido, mas também não era surdo. Tinha uma percepção apurada para o desconhecido, ouvia aquilo ou quem não podia ver ou que estivesse bem distante dele. Não sabia ao certo o porque, mas tinha uma atração por ônibus, ao ponto de todos os motoristas da cidade respeitarem seu estado quase vegetativo e respeitosamente o deixarem viajar sempre de graça. Moço novo, cheio de saúde, mas incompreendido, até por ele mesmo, um dom pouco aceito pelos outros, por isso reprimido somente a ele. Ônibus eram como radares catalizadores, ambientes ricos de pessoas passando, entrando e saindo o tempo todo, onde encontrava universos, e assim um cantinho de sorriso.

O jovem ao seu lado, com cabeça bem de velho já, cantava galanteios e tirava glórias e vantagens das quais ele não tinha nem de longe, mas se achava. Cada palavra sua passava entre os ouvidos do andarilho desconhecido, que só percebia ruídos, estava muito mais interessado nas pessoas de bocas fechadas, aí sim encontrava felicidade. A sua frente, uma mocinha jovem tinha sua cabeça balançando de um lado para o outro no chacoalhar do coletivo, e aquilo era como uma montanha russa para seus sonhos aventurescos, e o desconhecido descobridor de linguagem não ditas se deliciava em presenciar a mocinha passear pelas andanças de seus sonhos.

No fundo, e no fundo mesmo, era isso que ele ouvia: sonhos, pensamentos, ou pessoas falando ao telefone, mas as pessoas do outro lado da linha, nunca as desse lado. Por um tempo isso lhe incomodou e fez afastar todas as pessoas que ele amava. Mas felizmente aprendeu a amar de outra forma, a sonhar outros sonhos, a viver nas aventuras dos outros, as suas aventuras. Ouvia pensamentos, sonhos, e vozes de outros longe dele. Cada novo estranho era um novo universo para ele.

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6 pensamentos sobre “o desconhecido

  1. Fiquei muito emocionado com esse texto! Talvez por me ver um pouco nesse Andarilho, e também por ter a certeza de que enquanto houver pessoas como você, eu nunca estarei sozinho!
    Abraço!!

    • Oi, Jeronimo meu amigo.
      Muito obrigado mais uma vez pela visita e por suas palavras.
      A ideia do texto me veio ontem de noite, no ônibus mesmo. fiquei imaginando como seria uma pessoa “escutando” o que se passava na cabeça de cada pessoa ali, com certeza seriam várias viagens muito legais.
      Grande abraço. =)

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