cemitério de galinhas

Acordava às 4h30 todos os dias, sem despertador, pois odiava qualquer tecnologia. Pegava as sandálias velhas de couro, aquecidas pelo viralata que sempre dormia sobre elas. Saía e dava milho ao pombos. Odiava pombos, mas odiava ainda mais as pessoas, por isso preferia se cercar de pombos que afastavam as pessoas. Até o cheio do mato molhado ele queria odiar, mas não conseguia, e se odiava por isso.

Vivia ali sua medíocre vida, num velho casebre, com luz de lamparina, fogo de lenha, roupas que ficavam velhas e nem adiantava mais lavar, bebendo água do córrego ao lado, cercado de túmulos e gente morta que nem os parentes mais visitavam.

Há mais de trinta anos nenhuma pessoa visitava o cemitério. O mato crescia, criaturas da noite por ali rodeavam e o pobre do coveiro contava apenas com seu viralata sem nome como amigo, os pombos como repelente de pessoas e as galinhas, como irritante e barulhenta companhia. Odiava gente morta, mas se irritava muito mais com as opiniões e apontamentos dos vivos e suas certezas. Preferiu se isolar e jogou fora as seis chaves dos cadeados que prendiam as fortes correntes já enferrujadas dos portões.

Cultivava apenas seu ódio, barba, alimentos básicos para sobreviver e desgostos por tentar sobreviver apenas o tempo necessário de ser consumido logo pela terra. Tanta amargura deixara aquele corpo magro e seco, mas de alguma forma ainda tinha força e insistia em toda semana abrir sua cova esperando a lua aparecer e ditar seu destino.

Mas como nunca chegava sua hora, toda semana fazia uma gostosa canja. E enterrava os ossos das galinhas ali perto. Sempre nasciam e morriam galinhas. E assim o cemitério continuava vivo. Assim como o coveiro, cuja lua nunca vinha buscar oferecendo sono profundo.

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2 pensamentos sobre “cemitério de galinhas

  1. Que cara mau humorado kkkkk tem muita gente ruim no mundo, mas tem gente bacana que vale a pena conhecer. Existe muitos por ai iguais ao seu personagem, eu,inclusive quase viro uma , tinha medo de gente, hoje em dia aprendi a lidar com elas!

    • Às vezes a vida nos seca, às vezes nos rega. Às vezes a vida nos agasta, às vezes nos aproxima, até de nós mesmos. E nos redescobrimos, nos reinventamos ou nos reafirmamos a cada oportunidade ou escolha.
      Tem horas que quero me isolar e ficar quietinho, mas tem horas que quero abraçar o mais sincero e feliz um monte de gente que gosto. Tem momentos para tudo.
      Obrigado pelos comentários, fico bem feliz.

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