pintar um quadro novo


Se o horizonte nublou, se o cenário mudou, se caiu um pé d’água, se todos viraram-se contra você, se as contas chegaram, encare o céu, dê cor, pinte um quadro novo. Dê asas aos pés, ponha a sorte no bolso e confie mais nas suas escolhas. Se não tem mar, mergulhe no ar, na imaginação, com criatividade o cenário muda, com fé e sorriso o contexto ganha novos ares. Cantarole uma canção e ria de si mesmo se desafinar, sem vergonha de ser feliz. 

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“um trem pras estrelas”


Numa noite nublada, saindo do buraco do metrô avisto a escuridão a cair no verão do Rio. Como passa rápida a vida! As horas contadas quando as luzes acendem e as lojas fecham, e as ruas quase nunca desertas que apenas fingem dormir. Toca Cazuza no rádio e me deparo com betume na grande tela do topo do mundo. Precisaria um trem bem forte para romper barreiras do peito ao céu buscando alcançar estrelas. Visível no centro de tudo reina uma meia lua dourada e linda. Não importam seus nomes, mais que isso me encanta sua beleza, os seus mitos de fases que são um mistério. Dois sorrisos, ou vários, e ganho meu dia. A vida é um roteiro ainda não escrito, que toma forma nas linhas tortas. Somos os astros, somos o tempo, somos enigmas, somos estrelas. 

leitura


Tentei ler nuvens mas não concluí uma frase. Tentei as palavras mas não concluí um livro. Tentei decifrar pensamentos mas não completei um raciocínio. Tentei interpretar sonhos mas vários foram interrempidos. Em vez de me sentir analfabeto, pude me sentir de novo aprendiz iniciante. Na arte de viver há sempre muito o que aprender. 

seja


Seja a transformação, a cura, a razão, a pureza que você mesmo deseja, seja a bondade, a humanidade, o amor, a força. Seja e acredite. Gandhi tinha razão. Não adianta buscar isso no mundo, em pessoas, bens ou coisas, se não partir algo sincero dentro de si.

Já despertaram coisas muito boas e ruins em mim. Também acredito já ter ajudado a despertar coisas boas em outras pessoas. Percebi como ainda tenho muitos defeitos e o que melhorar. Mas não posso me diminuir e tenho que acreditar também nas minhas qualidades, não teria chegado até aqui sem elas. 

Seja a grandeza com humildade, o amor sem cobrança, a dedicação sem dor. Seja ajuda sem querer nada em troca. Pois virá naturalmente um mundo de coisas boas. Seja paz, e harmonia virá na medida e simplicidade certas. 

esquecer


A vida me presenteou com falhas, que bom. Que benção enorme em ter falhas, para poder então a cada dia, a cada descoberta, cada pessoa, cada recaída, poder entender, assimilar e poder superar e amadurecer. No meu tempo de moleque não sabia o que era saudade, não compreendia amor, não vislumbrava um futuro ou carreira, não tinha memórias ou histórias, não sabia a proporção do que era amizade. Esquecer ou deixar de lado seria como negar a certeza de uma ignorância, que aos poucos vem sendo contornada e superada. Devo muito a tudo e todos que encontrei pelo caminho. Esquecer é negar evoluir. 

incerteza viva*


Bicho solto, cão sem dono e sem coleira, no mundo, largado pelo caminho, de bairros à países, dono de nada e nem do próprio nariz. Sem rumo nem fala, sem chão e sem nada. Com tudo sem saber. Vivendo a cada dia com poucas lembranças do passado e na incerteza viva do futuro. Vale quanto pesa? Então vale pouco. E se for pelo peso no mundo nas costas? Então custa caro. Dois pesos e duas medidas, fluido como é frágil a vida que passa diante dos olhos no meio de uma estrada. 

*Incerteza Viva é tema da edição 32 da Bienal de São Paulo

o poeta pede passagem

O poeta caminha em silêncio pelas ruas, dribla buracos como quem baila num salão. Cruza olhares e imagina histórias como gato emaranhando fios de lã, brincando, tecendo verdades paralelas, amores e colorindo de vidas em páginas não escritas. 

O poeta pede passagem, para enveredar por vias, veias, mentes e corações, corroer dissabores, colorir e perfumar os amores. O poeta paga passagem, tem na sua arte a moeda de troca, oferece seu coração em palavras escritas ou declamadas numa praça, debaixo de uma árvore florida. 

desandar

Deixa desandar a baixaria
que de samba o povo faz alegria
deixa destilar a cachaça

deixa prender o cabelo
no calor do corpo belo
deixa descabelar
o povo quer brincar

com o sol que arde
ou na chuva que brinda

seja pé no chão
seja sandália rasteira

deixa desandar a alegria
que na mistura de ritmo
se faz arte, se faz vida
deixa brincar
deixa sacanear
embaralhar pés e braços, abraços
deixa beijar
deixa abraçar
levantar a saia ao rodar
deixa deixar.

falta título


De tudo em meu amor serei sereno, frio e calor, suspiro e arrepio, vento ou briza fraca, atenção e força, até lágrima, se for preciso, arrependimento. Serei também fraco. De tudo em minha arte serei parte, entrega, terá pouco ou muito se mim, gestual, cor, toque, sorriso, encanto, até falha. Mesmo sem título, sem nome, sem respostas, sem saber me expor, mas serei sincero. Sem título, sem rótulo. De tudo em meu ser, serei eu mesmo. 

no meio do caminho


No meio do caminho tinha um caminho. Se antes não sabia por onde andava, agora me encanta não saber onde poderei me permitir ir. No meio do caminho caminhei, corri, pedalei, cai, tive que parar, voltei, recomecei, descobri rotas, sentimentos, sabores e encontrei um pouco mais de mim. Continuarei caminhando e preenchendo a vida de tudo aquilo que puder descobrir.