para onde quer que eu vá


Se eu me perder, ainda assim farei da tristeza companhia. Se cair, ainda assim farei do nada uma oportunidade. Se me faltarem palavras, tentarei gestos. Se me faltarem palavras e gestos, ainda assim tentarei qualquer forma que tiver para demonstrar o que sou ou o que preciso, mesmo precisando de ajuda. 

Se me sobrar alegria, que tenha sabedoria em cultivá-la e generosidade em compartilhá-la. 

Se me faltar luz por onde andar, que as sombras sejam um conforto fresco. Se ao contrário me faltarem sombras, que seja o sol não o que queima, mas o que ilumina ou recarrega e ativa energias. 

Se me sobrarem dúvidas, que saiba conviver com elas e buscar as respostas cabíveia e justas. As que não tiverem respostas, que sejam passos pelo caminho, ou tempero. 

Se tiver mais respostas que dúvidas, que então tenha sabedoria em questionar a razão, e generosidade em compartilhar essas certezas. Aprender muito mais em poder ajudar. 

Para onde quer que eu vá, que haja caminho por fazer destinos. 

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leitura


Tentei ler nuvens mas não concluí uma frase. Tentei as palavras mas não concluí um livro. Tentei decifrar pensamentos mas não completei um raciocínio. Tentei interpretar sonhos mas vários foram interrempidos. Em vez de me sentir analfabeto, pude me sentir de novo aprendiz iniciante. Na arte de viver há sempre muito o que aprender. 

melhor para mim


Em vez de desejar te tocar para tentar alcançar o céu, vou desejar alcançar o céu para tentar me tocar. 

Não é por olhar como se fosse o centro do universo, pois é definitivamente o que não quero ser. Mas cansei de ver o universo se mover, e preciso também fazer de mim movimento, força e buscar centramento e razão. 

textos arrependidos


Textos esquecidos antes mesmo de serem escritos, ficando na falta de lembranças, a falta daquilo que em algum momento fez sentido ser dito. Perdem-se entre dedos, entre teclas, em tela, como algo enterrado no tempo. Muita coisa escrevi e guardei, não publiquei. Muita coisa ficou na cabeça, em intermináveis diálogos comigo mesmo, entre o que queria dizer a mim ou o que eu gostaria de ter ouvido. Entre o que eu queria dizer a você, ou a você, ou a você, … ou a outras tantas pessoas. Mas me coube guardar, ou me recolher em calar. Não me arrependo do que fiz, vivi, disse, demonstrei ou mesmo que tenha deixado de fazer, viver, dizer e demonstrar. Não me arrependo dos meus desabafos nem dos meus textos calados, guardados no rascunho, que nunca serão lidos por ninguém. Nem me arrependo de não ter escrito o que deveria. Pois tudo pode de alguma forma se resolver e curar. Mesmo as lágrimas que caem, são de dor, ou de querer e não e arrependimento. Errei sim, e muito! Causei mais dor do que a que sinto. Mas minha dor também tem valor e significado. Não cabe nem a mim julgar, ser juiz das minhas falhas, mas me policiar para superá-las.

desafie seus gigantes

Não sou cara de desafios, nem de me colocar à prova, mas hoje desafiando o maior dos gigantes, o único gigante contra quem devo travar harmoniosa e dura batalha: eu mesmo. Sou meu maior companheiro, meu maior oponente. Entre dificuldades, dúvidas, decepções e frustrações, entre choro, raiva, entre tristeza e alegria, sorrisos, carinho, apoio e negações, escolhi e busquei tentar superar e vencer. Reconquistar meu espaço, poder olhar novamente no espelho, poder olhar cada canto do Rio de Janeiro sem precisar chorar por boas lembranças, momentos e histórias vividas que não vão voltar. Não peço pra voltarem, e não me arrependo de nenhum momento vivido ou não tendo sido possível de ser vivido. Mas na boa, a vida abre e brilha como sol todos os dias, então não me cabe ser refém de mágoas, por isso mudo minha cabeça e trilho desejando felicidade a mim e a todos. Sem egoísmo, mas minha felicidade é importante. Sem ego, mas eu sou importante, e devo me valorizar. Sem medo, pois já passei riscos de mais e sai ileso, de mente tranquila e consciência limpa, por não mentir quem e o que eu sou. Mesmo fraco ainda, hoje sou mais forte, grita em mim uma pura vida, jovem e linda, e isso ninguém me tira.

me dê um gole de vida


Toda queda um sopro. Cada perda um encontro. No escuro uma luz. Em cada glória um recado. Perspectivas, expectativas, pontos de vista, desilusões e frustrações, momentos de profundo vazio ou de êxtase em alegrias e realizações. Sentimentos fervilhando na mente, ideias e planos em conexão no coração. Cada respirada mais profunda um novo gole de vida. 

pequenas coisas


Não vá assim me deixando pura lágrima, pois em mim apaga mais uma bela chama. Estive tão perto do fogo, tão perto do olho do furacão, senti a alma transbordar pelo corpo e quase sair dele pela boca. Eu não aguento mais. Estive tão perto do que havia perdido, perto de alcançar de novo, e escorreu pelos dedos. Não me cabe julgar nem cobrar os outros, pois me cabem tantas fraquezas, defeitos, erros, falhas, falta em mim muito que agarrar e defender com unhas e dentes. Para alcançar o que quero às vezes não basta só querer, só vontade, é preciso um pouco mais, vindo de dentro. Me resumo a pequenas coisas. 

incerteza viva*


Bicho solto, cão sem dono e sem coleira, no mundo, largado pelo caminho, de bairros à países, dono de nada e nem do próprio nariz. Sem rumo nem fala, sem chão e sem nada. Com tudo sem saber. Vivendo a cada dia com poucas lembranças do passado e na incerteza viva do futuro. Vale quanto pesa? Então vale pouco. E se for pelo peso no mundo nas costas? Então custa caro. Dois pesos e duas medidas, fluido como é frágil a vida que passa diante dos olhos no meio de uma estrada. 

*Incerteza Viva é tema da edição 32 da Bienal de São Paulo

medo do sentido (recados espirituais)


Eu perdi o meu medo, meu medo do medo. Eu passei a gostar do bem que a chuva me faz. Eu passei a viver momentos, ser visual e volúvel como a vontade. Eu pedi e perdi um pouco de paz. Interiorizei algo que não consegui ainda conquistar. Me disseram que não me cabe ter. Eu perdi o sentido da vida. Escapou entre os dedos, escapou sem eu perceber e minha escolha ajudou a afastar. Minhas escolhas me fizeram parecer confuso e falso, parecendo superficial. Será que irei um dia encontrar? Meu medo, olhando pela janela é não me ver pertencente a esse mundo, não merecedor de tal sentimento que tanto respeito e quero para me completar, para me fazer ter sentido.