mais gavetas do que mentes abertas

Há um certo ar de ironia na vida, quando em meios e tempos contemporâneos, de acesso a tudo, liberdade sobre tudo, ainda somos contraídos em herméticos pensamentos. Em que há sempre mentes vazias, mentes fechadas, mentes sofridas, pessoas na esquiva, energia perdida, frustrações, esforços em vão. Mais fácil fecharem as portas, as janelas, dizer um não, aceitar um não, do que ouvir boas opiniões. Se “de boas intenções o inferno está cheio”, então de boas ideias as gavetas também estão. 

De teias de aranhas temos que tecer uma trama de ramificadas possibilidades. Não uma armadilha, mas uma bela, positiva e sutil fuga ao infinito. Abrir as gavetas e botar as ideias em prática. Abrir a mente e botar a vida em prática. 

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para onde quer que eu vá


Se eu me perder, ainda assim farei da tristeza companhia. Se cair, ainda assim farei do nada uma oportunidade. Se me faltarem palavras, tentarei gestos. Se me faltarem palavras e gestos, ainda assim tentarei qualquer forma que tiver para demonstrar o que sou ou o que preciso, mesmo precisando de ajuda. 

Se me sobrar alegria, que tenha sabedoria em cultivá-la e generosidade em compartilhá-la. 

Se me faltar luz por onde andar, que as sombras sejam um conforto fresco. Se ao contrário me faltarem sombras, que seja o sol não o que queima, mas o que ilumina ou recarrega e ativa energias. 

Se me sobrarem dúvidas, que saiba conviver com elas e buscar as respostas cabíveia e justas. As que não tiverem respostas, que sejam passos pelo caminho, ou tempero. 

Se tiver mais respostas que dúvidas, que então tenha sabedoria em questionar a razão, e generosidade em compartilhar essas certezas. Aprender muito mais em poder ajudar. 

Para onde quer que eu vá, que haja caminho por fazer destinos. 

leitura


Tentei ler nuvens mas não concluí uma frase. Tentei as palavras mas não concluí um livro. Tentei decifrar pensamentos mas não completei um raciocínio. Tentei interpretar sonhos mas vários foram interrempidos. Em vez de me sentir analfabeto, pude me sentir de novo aprendiz iniciante. Na arte de viver há sempre muito o que aprender. 

melhor para mim


Em vez de desejar te tocar para tentar alcançar o céu, vou desejar alcançar o céu para tentar me tocar. 

Não é por olhar como se fosse o centro do universo, pois é definitivamente o que não quero ser. Mas cansei de ver o universo se mover, e preciso também fazer de mim movimento, força e buscar centramento e razão. 

eu serei a hiena


… então percebi que ainda sou muito criança, muito velho, que sou eu mesmo a falta que sinto por sentro. Fui e voltei, cai, ri disso tudo, cresci de mais, amadureci de mais, não totalmente ainda. Mas uma voz me lembra que é assim que se vive a vida, conquistando um pouco mais de mim a cada dia. Sou quase fã de mim mesmo. Uns dias na primeira fila, outros dias no fundo da arquibancada. Fã, ídolo, crítico, companheiro, patrocinador, carrasco. Quem sabe ainda sou uma garotinha? Irei rir de mim mesmo ainda, e da vida.

textos arrependidos


Textos esquecidos antes mesmo de serem escritos, ficando na falta de lembranças, a falta daquilo que em algum momento fez sentido ser dito. Perdem-se entre dedos, entre teclas, em tela, como algo enterrado no tempo. Muita coisa escrevi e guardei, não publiquei. Muita coisa ficou na cabeça, em intermináveis diálogos comigo mesmo, entre o que queria dizer a mim ou o que eu gostaria de ter ouvido. Entre o que eu queria dizer a você, ou a você, ou a você, … ou a outras tantas pessoas. Mas me coube guardar, ou me recolher em calar. Não me arrependo do que fiz, vivi, disse, demonstrei ou mesmo que tenha deixado de fazer, viver, dizer e demonstrar. Não me arrependo dos meus desabafos nem dos meus textos calados, guardados no rascunho, que nunca serão lidos por ninguém. Nem me arrependo de não ter escrito o que deveria. Pois tudo pode de alguma forma se resolver e curar. Mesmo as lágrimas que caem, são de dor, ou de querer e não e arrependimento. Errei sim, e muito! Causei mais dor do que a que sinto. Mas minha dor também tem valor e significado. Não cabe nem a mim julgar, ser juiz das minhas falhas, mas me policiar para superá-las.

desafie seus gigantes

Não sou cara de desafios, nem de me colocar à prova, mas hoje desafiando o maior dos gigantes, o único gigante contra quem devo travar harmoniosa e dura batalha: eu mesmo. Sou meu maior companheiro, meu maior oponente. Entre dificuldades, dúvidas, decepções e frustrações, entre choro, raiva, entre tristeza e alegria, sorrisos, carinho, apoio e negações, escolhi e busquei tentar superar e vencer. Reconquistar meu espaço, poder olhar novamente no espelho, poder olhar cada canto do Rio de Janeiro sem precisar chorar por boas lembranças, momentos e histórias vividas que não vão voltar. Não peço pra voltarem, e não me arrependo de nenhum momento vivido ou não tendo sido possível de ser vivido. Mas na boa, a vida abre e brilha como sol todos os dias, então não me cabe ser refém de mágoas, por isso mudo minha cabeça e trilho desejando felicidade a mim e a todos. Sem egoísmo, mas minha felicidade é importante. Sem ego, mas eu sou importante, e devo me valorizar. Sem medo, pois já passei riscos de mais e sai ileso, de mente tranquila e consciência limpa, por não mentir quem e o que eu sou. Mesmo fraco ainda, hoje sou mais forte, grita em mim uma pura vida, jovem e linda, e isso ninguém me tira.

esquecer


A vida me presenteou com falhas, que bom. Que benção enorme em ter falhas, para poder então a cada dia, a cada descoberta, cada pessoa, cada recaída, poder entender, assimilar e poder superar e amadurecer. No meu tempo de moleque não sabia o que era saudade, não compreendia amor, não vislumbrava um futuro ou carreira, não tinha memórias ou histórias, não sabia a proporção do que era amizade. Esquecer ou deixar de lado seria como negar a certeza de uma ignorância, que aos poucos vem sendo contornada e superada. Devo muito a tudo e todos que encontrei pelo caminho. Esquecer é negar evoluir. 

45


Mem cinco minutos guardados, eternizados em auge de mais puro sentimento foram argumentos fortes para sustentar a identitade líquida dos seres. Palavras doces, recaídas, esperanças, negações, mais esperanças vazias, conselhos e broncas, tentativas de abrir os olhos entre as lágrimas. Cinco segundos para decidir, quarenta e cinco para se arrepender, seis horas de reflexão e conselhos musicais abafados egoisticamente nos ouvidos. O que é (e o que nunca foi) amor nos dias de hoje? Como pessoas que escorrem pelos dedos, sentimentos negados, escolhas tomadas. O juiz também deixou o apito de lado e foi jogar, a vida segue correndo e ninguém quer perder. Tenho orgulho por ter tentado, sincero em mim, no meu ser. Nas lágrimas me fortaleço, pois lavo minha alma.