carregue consigo uma caixinha de amor


Sem arte a vida não é nada senão vida sem arte. Sem vida a arte não existiria. Com poesia a vida ganha mais cores, flores, texturas e sabores, mais encantos, risos, sorrisos e abraços. As ideias estão nos olhos: de quem vê e de quem se vê. Toque-se, toque o coração de alguém, vá sem medo. Mas se der medo, na boa, não esconda sentimentos, vá! Converse com um estranho, não o olhe estranho, entenda, mesmo sem conhecer, que ele é tão vida e tão bonito quanto você. Seja poesia, pois o mundo tem mais encantos do que a gente imagina. 

incerteza viva*


Bicho solto, cão sem dono e sem coleira, no mundo, largado pelo caminho, de bairros à países, dono de nada e nem do próprio nariz. Sem rumo nem fala, sem chão e sem nada. Com tudo sem saber. Vivendo a cada dia com poucas lembranças do passado e na incerteza viva do futuro. Vale quanto pesa? Então vale pouco. E se for pelo peso no mundo nas costas? Então custa caro. Dois pesos e duas medidas, fluido como é frágil a vida que passa diante dos olhos no meio de uma estrada. 

*Incerteza Viva é tema da edição 32 da Bienal de São Paulo

falta título


De tudo em meu amor serei sereno, frio e calor, suspiro e arrepio, vento ou briza fraca, atenção e força, até lágrima, se for preciso, arrependimento. Serei também fraco. De tudo em minha arte serei parte, entrega, terá pouco ou muito se mim, gestual, cor, toque, sorriso, encanto, até falha. Mesmo sem título, sem nome, sem respostas, sem saber me expor, mas serei sincero. Sem título, sem rótulo. De tudo em meu ser, serei eu mesmo. 

o espetáculo não pode parar

Se o artista morrer
a arte deve continuar
mais triste, mais forte
mais frágil, mar rica
mais lírica, mais ácida
mais sábia, mais romântica
mais tudo, mais nada
mais sorte e encanto
mais perda
desencanto
mais passarinhos voando
mais do mesmo, mas assim mesmo

o espetáculo não pode parar
o artista empenhou-se tanto em sua obra
para que ao final não fosse em vão
que não fosse apenas final
se assim fosse, que fosse então um final feliz
mas finais felizes são sempre recomeços

o artista não morreu
ele viverá sempre em sua arte
a arte não morreu
ela viverá sempre habitando o artista.

feira da Praça XV

Passo por ali aos sábados de manhã
velhos, antigos, ultrapassados, desnecessário a desejados
sujos ou brilhantementes novos objetos antigos
a feira
de frente paras barcas
debaixo do viaduto
de cara para o antigo do Rio

me faz sorrir pelo lúdico
pelos velhos hábitos e formas de fazer as coisas
das histórias que não vivi, nem presenciei
vontade de viver vários tempos e realidades
tantos lugares e possibilidades

tantas pessoas e seus utensílios
suas traquitanas nas bancadas de madeira rota
quinquilarias pelo chão e lonas
suas vidas e as vidas de outros expostas
oferecendo de tudo, comprando e vendendo
novos e velhos a preços de banana
novos e velhos a preços de grife
gato por lebre
pó e sujeira a peso de ouro

alegria não tem preço
passeio que encanta e revela tantos segredos e possibilidades.

paredes desbotadas

Como se já não bastassem serem retas
altas ao ponto de não se poder alcançar e tocar o teto
desbotaram-se sem graça
foi-se a cor afeminada
a cor pastel feita especialmente e única
restaram manchas que se camuflam
e se misturam a rachaduras

furadeira e brocas revelam cor de terra dentro delas
terra dura, empilhada, escalando alto
tijolos escondidos atrás de camadas
poeira, fuligem que se revela
pairam no ar até repousar no chão, em cada canto
brocas, buchas, parafusos, pregos
estacas agarradas às duras superfícies cor de nada
prontas para receberem, em molduras, novas cores
temas absurdos, figurativos, abstratos
artes e experimentos
paredes florescendo-se em novas cores vivas
sobe arte, sobe cor, encanta-me o meu espaço decorado
improvisadamente divertido e lúdico.

conectado

image

Rede aberta, vamos lá. Nem precisa contar, só clicar e esperar um pouquinho, imagina quando não precisar nem mais clicar, só pensar. Frases sem pausas, papos sem interrupção, de um lado para o outro, em todo lugar, conectados. Livres e vigiados, observando e observados. O erro na pressa, correria indireta, paz da maneira que nos resta.

Cada um no seu quadrado colorido, trancados em seu fones. Isolados somos na imensidão da rede aberta que formamos juntos. A tecnologia nos afasta na mesma proporção que nos aproxima.

Que bom que ainda há quem saque livros e jornais de suas bolsas ou mochilas. E lá embaixo pessoas no objeto voador não identificado, devidamente catalogado.

despreocupado

E que mal há em se ter fé? Que mal há em se mudar de ideia? Que mal há em buscar mudar-se, reinventar-se, inverter cérebro por fora de cabeça, coração por fora de peito? Acertar errado ou errar acertado. De nada há de ser tão certo quanto aquilo que nos toca como sincero.

Então mude a mudança, seja a mudança e alcance a segurança que a insegurança lhe proporciona. Seja certo ou errado, pois nada mais certo há do que o erro. E nada mais belo que a sinceridade e entrega pura que nos proporcionamos em viver a vida, plenamente felizes, despreocupados.

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Para minha amiga Moana Moraes, e suas belas ilustrações no blog Acabou minha bic!

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Ouvindo: Tiê