mais gavetas do que mentes abertas

Há um certo ar de ironia na vida, quando em meios e tempos contemporâneos, de acesso a tudo, liberdade sobre tudo, ainda somos contraídos em herméticos pensamentos. Em que há sempre mentes vazias, mentes fechadas, mentes sofridas, pessoas na esquiva, energia perdida, frustrações, esforços em vão. Mais fácil fecharem as portas, as janelas, dizer um não, aceitar um não, do que ouvir boas opiniões. Se “de boas intenções o inferno está cheio”, então de boas ideias as gavetas também estão. 

De teias de aranhas temos que tecer uma trama de ramificadas possibilidades. Não uma armadilha, mas uma bela, positiva e sutil fuga ao infinito. Abrir as gavetas e botar as ideias em prática. Abrir a mente e botar a vida em prática. 

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melhor para mim


Em vez de desejar te tocar para tentar alcançar o céu, vou desejar alcançar o céu para tentar me tocar. 

Não é por olhar como se fosse o centro do universo, pois é definitivamente o que não quero ser. Mas cansei de ver o universo se mover, e preciso também fazer de mim movimento, força e buscar centramento e razão. 

as cortinas da cidade


A cidade é cheia de olhares, pontos de vista, pontos de fuga, em meio ao caos a calmaria, no meio da paz a disparidade barulhenta de ruídos calorosamente tensos. A cidade não dorme porque as pessoas não param. Parei de usar relógio porque às vezes as horas não fazem sentido. Entre becos escondem-se segredos e perigos, revelam-se certezas, cultivam-se prazeres, roubam-se bens, corações ou beijos, dança a molecada, inventam-se novas brincadeiras. Portas e janelas, abrem-se ao mundo, formando mentes de intelecto observador, ávidos por mudanças de paradigmas, ou mesmo fraca gente que aceita passivamente cada sermão que a vida lhes dá. Estender uma mão é como abrir os olhos e enchergar uma nova cidade, cheia de suas cortinas, coloridas, opacas, com ou sem blecaute, que escondem ou que instigam a curiosidade. A cidade é muitas outras por trás de suas cortinas. 

quando deixar de ser um merda


Tem dias que amanhecem nublados, como escurece a visão por não enxergar mais que palmos adiante. Como na vida também escurece a percepção, deixando de ter sentido, de sentir, perdendo entendimento literal do que se passa. 

Viver entre altos e baixos, entre risos, entre êxtase de alegria e choro calado sozinho, quando baixa a imunidade, a coragem, a vontade e o saber das escolhas. Quando faltam palavras a definir ou explicar. Quando deixo de parecer um merda e passo então a ser um. Não peço pena, não peço que me entendam, não me cabe esse direito. Não me cabe o que causo ao mundo.

aprendiz

Tantos em mim, faces, escolhas, gestos, inúmeras falhas, por onde vou e o que sou. O que posso ou poderei ser? Ângulos e interface, de dentro olho para fora. De fora tento jogar uma luz para ver dentro. Me perco achando que encontrei, depois caio na real. Sou só eu, que não consigo dividir em muitos. Sou muitos, que talvez não caibam num só eu. 

porto seguro

Quando só me restarem dúvidas, farei delas o maior impulso na busca de afirmar o que sou e o que sinto. Se as certezas estiverem abaladas, ao menos em mim terei algum porto seguro, a quem recorrer, consultar e reler aquela sinceridade de criança.

Posso oferecer o melhor que tenho, o melhor que sou, meus sentimentos mais puros, meu olhar e timidez, meu carinho e companheirismo. Mesmo as mãos trêmulas de medo pelo que vier a encarar, podem ao se fechar, agarrando uma a outra, ganhar força e coragem. Minhas mãos e palavras não pagam contas, não mudam opiniões, mas minha presença pode ajudar a ser um escudo contra a sociedade e as babaquices do mundo.

Desejo te segurar pela mão, olhar nos olhos e dizer “vamos juntos”.

Não tenho medo das opiniões alheias, pois contratempos e ignorância, intolerância sempre existirão. Meu medo mora em não poder viver o que mais quero.

Se o mundo ruir, mesmo assim eu ficarei. Se todos forem contra, mesmo assim acreditarei. Chegando meu momento e vou brilhar, seguindo meu rumo, refletindo brilho das energias boas à minha volta.

Vamos brilhar juntos, nós que acreditamos na liberdade. “Vamos viver tudo que há pra viver, nos permitir”, acreditando que qualquer dificuldade no caminho é pequena diante das conquistas que tivemos e ainda poderemos alcançar.

natureza humana

Independente de religião, crenças, de qual(ais) deus(es) você acredite, gostos, orientação sexual ou qualquer das variáveis, escolhas ou imposições da vida, somos puro fruto da natureza humana. Em essência nascemos de pais e mães, que podemos ou não conviver com eles parte ou a vida inteira, mas do ato de querer, de fazer, da gestação ao nascimento, e todo crescimento e evolução posterior, é natural de cada espécie, da física, química, genética e uma série de acontecimentos naturais do universo ao nosso redor.

Justificar a gratidão e um abraço por religião ou conhecimento teórico e técnico, ou mesmo justificar a agressão ou violência pelos mesmos fatores, não, isso não faz parte de nenhuma religião ensinar. São escolhas, sentimentos, desejos. São escolhas. Se escolhemos beijar, beijamos, se escolhemos levantar a voz ou a mão em ato agressivo, são atos que doem não só na outra face.

Vivemos em um mundo louco, expressivo, reprimido, intenso, acelerado, bonito, amoroso, mas também muito violento. Mais um atentado, sim mais um, e infelizmente é mais comum do que podemos suportar. Muitas pessoas morrem, outras tantas feridas, e muitas outras perdem chão, familiares e esperanças. Outros mesmo nas diversidades ainda lutam bravamente para fazer o mundo melhor.

Atentados terroristas não são missões de vidas, são escolhas erradas. São interpretações burras ou manipuladas, de mentes fracas, que já mataram dentro de si todas as esperanças.

Desejo, de coração, que tudo isso acabasse, que ninguém mais quisesse ferir ou destruir, e ninguém mais morresse nessas ações trágicas. Espero, e mando energias positivas, que nossa natureza humana fale mais alto, que humanos e outras espécies saibam contornar e fazer o universo e nossas vidas girarem e continuarem de forma linda e duradoura, com esperanças, amor e evolução mental, espiritual e tudo mais do que precisamos.

mesa para dois

 Boa noite, seja bem vindo. Mesa para dois, senhor?
Não, hoje não. Não enquanto isso durar…
Fique à vontade. Deseja algo para beber?
Algo mais forte do que eu, por favor…
Água serve?
 … serve. Sem gás, por favor. Sem limão e sem gelo. Sem gelo…
Aqui, senhor: a água e a conta.
– Mas não pedi a conta.
 Senhor, se não vai consumir mais nada, é melhor ir embora. Não existe mesa para uma pessoa, todas são para no mínimo duas. Tem mais pessoas querendo usar.
 Ok! Aqui está. E pode ficar com o troco.
 Obrigado pela preferência e volte sempre. Cuidado com o degrau ao sair.
 Tomarei cuidado…
 Opa, foi por pouco. E ainda bem que avisei.
 Foi por tão pouco mesmo…
 Boa noite, senhor. Passar bem.

um vazio

Vejo tudo que há pela frente
e me sinto cego

vejo tudo que ficou para trás
e ainda assim me sinto cedo

cego por ter tantas possibilidades
que nem cabem nos dedos para tocar
cego por não vislumbrar
que caminhos tomar
cego de tanto ver
ver de nem sempre enxergar

cego por achar
sem me encontrar

vejo um futuro passado
que não mais virá
vejo um passado futuro
que não mais voltará
vejo um presente vazio
virando passado
esperando um futuro
sem saber o que será.

meio termo

Tenho que me lembrar
de esquecer
tenho que esquecer
que viver não é só guardar
guardar nem sempre tem a ver com ter

ter em excesso é loucura
faltam mãos e espaço no coração

o que temos e que deveria nos bastar
é somente aquilo que somos

mas quando somos ilusão
nem nos sonhos sabemos quem somos
e quando não somos
não nos restam sonhos

tenho que me lembrar de que…
não adiantam borrachas para apagar,
aquilo que realmente importa
o tempo há de guardar.