rei da empada


Acorda cedo todo dia, antes de todos, para ver nascer o sol diante de si ao abrir a janela. Espreguiça leve, fazendo uma reverência como maestro regendo o astro maior. Toma seu banho no conforto de uma meia luz do banheiro silencioso. Canta para despertar e esquecer da água gelada. Se divide entre preparar o café e separar nobres iguarias e receitas, dispondo de tudo na enorme bancada. Mãos ágeis ao misturar cada elemento, em proporções e medidas tiradas de anos de experiência e dedicação, acariciando a massa, cultivando recheio como habilidoso alquimista de sabores. Enforma com precisa arte e delicadeza, recheia e tampa, sela e enfileira meticulosamente no tabuleiro como um jogo de xadrez. Ah, e cantarolando para harmonizar cada etapa do processo. Forno ligado, aquecido, acolhe o tabuleiro de forminhas, cozendo sabores no tempo certo da massa: a leveza, crocância e textura de desmanchar na boca. Uma a uma ele vai embalando e armazenando em suas prateleiras de venda, coloca sua camisa branca engomada, seu chapéu coroa a sábia cabeça, e sai pelas ruas espalhando delicioso aroma de suas iguarias. Logo logo crianças, pais e idosos se aproximam para degustar de tão belas preciosidades culinárias e mais um dia o rei da empada conquista súditos e garante seus sustento, além, e acima disso, a grande satisfação a qual se dedica por anos e anos, recheando sua vida de amor e sabor. 

Anúncios

cemitério de galinhas

Acordava às 4h30 todos os dias, sem despertador, pois odiava qualquer tecnologia. Pegava as sandálias velhas de couro, aquecidas pelo viralata que sempre dormia sobre elas. Saía e dava milho ao pombos. Odiava pombos, mas odiava ainda mais as pessoas, por isso preferia se cercar de pombos que afastavam as pessoas. Até o cheio do mato molhado ele queria odiar, mas não conseguia, e se odiava por isso.

Vivia ali sua medíocre vida, num velho casebre, com luz de lamparina, fogo de lenha, roupas que ficavam velhas e nem adiantava mais lavar, bebendo água do córrego ao lado, cercado de túmulos e gente morta que nem os parentes mais visitavam.

Há mais de trinta anos nenhuma pessoa visitava o cemitério. O mato crescia, criaturas da noite por ali rodeavam e o pobre do coveiro contava apenas com seu viralata sem nome como amigo, os pombos como repelente de pessoas e as galinhas, como irritante e barulhenta companhia. Odiava gente morta, mas se irritava muito mais com as opiniões e apontamentos dos vivos e suas certezas. Preferiu se isolar e jogou fora as seis chaves dos cadeados que prendiam as fortes correntes já enferrujadas dos portões.

Cultivava apenas seu ódio, barba, alimentos básicos para sobreviver e desgostos por tentar sobreviver apenas o tempo necessário de ser consumido logo pela terra. Tanta amargura deixara aquele corpo magro e seco, mas de alguma forma ainda tinha força e insistia em toda semana abrir sua cova esperando a lua aparecer e ditar seu destino.

Mas como nunca chegava sua hora, toda semana fazia uma gostosa canja. E enterrava os ossos das galinhas ali perto. Sempre nasciam e morriam galinhas. E assim o cemitério continuava vivo. Assim como o coveiro, cuja lua nunca vinha buscar oferecendo sono profundo.