parece sexta-feira

Virou o dia, ainda é meio de semana, mas parece sexta-feira, tem cara e clima de sexta. Um fim, algo que fica no ar, algo que ainda falta, aquela inexplicável sensação que se o tempo voou, também parou, bloqueado em uma estação que não sintoniza.

Abro os olhos, tento abrir janelas, expor feridas, abrir o peito e o coração, pensar nas possibilidades, e vejo dias e dias passados misturando nostalgia e expectativas, esperanças e planos, confusão e promessas. O chão instável, parece brincar de bêbado e equilibrista. Não adianta assentar o pé, pois é só peso e não firmeza.

Não adianta escrever a própria poesia, pois muitos outros poetas de verdade tentaram entender ou explicar.

Não se faz curva no tempo. Não se pode enganar o destino. Não se sustenta sentimento na dúvida. Não se deve querer tocar o que não existe.

Mas é possível administrar bem e aproveitar o tempo. É possível fazer o destino ser aquilo que conduzimos a partir de sonhos e desejos, e principalmente esforço e dedicação. Com amadurecimento e entendimento é possível fortalecer os sentimentos, quando são puros. E o que não existe, bem, é possível fazer existir, se não puder tocar, sinta.

Parece sexta, mas ainda é quarta-feira. Não terminou, não é o meio, mas é mais um começo. E porque não abrir novas janelas?

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meio termo

Tenho que me lembrar
de esquecer
tenho que esquecer
que viver não é só guardar
guardar nem sempre tem a ver com ter

ter em excesso é loucura
faltam mãos e espaço no coração

o que temos e que deveria nos bastar
é somente aquilo que somos

mas quando somos ilusão
nem nos sonhos sabemos quem somos
e quando não somos
não nos restam sonhos

tenho que me lembrar de que…
não adiantam borrachas para apagar,
aquilo que realmente importa
o tempo há de guardar.

eu erro

Cansado dos xingamentos, do calor das pessoas e do calor da cidade.
As vidas lotadas de falta de sentido e as dúvidas.
A vida é um ônibus? De passagem? Ou dê passagem?
Cansado de ter que escolher e não saber por onde começar.
Não entendo porque tanto rivotril ou dorflex, enquanto as pessoas nem sequer bebem água direito, ou de boa qualidade.
Escadas para subir, barrancos por cair.
Andadores artificiais, preguiça até de chamar o elevador.
As obras que nunca acabam, e as necessidades básicas nunca sanadas.
Furar fila, entras no ônibus sem pagar, pular a roleta ou entrar pela janela.
Quando lembrar de dar bom dia já é quase hora de ir embora.
Cansado dos tiros, da falsa segurança, cansado do medo.
Pessoas cheias de razão, cheias de si.
Virar a cara para o próximo, não ter a mão generosa, e ainda ser pedinte mal agradecido.
Cartazes nas ruas que não dizem nada.
Pessoas que não conversam com livros.
Digitalização da banalidade.
Eu erro, tu erras, ele erra, nós erramos, vós errais, eles erram.
Eu era, eles eram…

o Rio de Janeiro continua

O Largo dos Leões não tem leão algum
em Jacarepaguá, o jacaré no seco anda…
a Praça Paris não tem nada do charme europeu
o Largo da Segunda-feira está lá todos os dias, mesmo nas folgas
o Engenho Novo não é engenho, e tão velho quanto o velho
o antigo Jardim Zoológico nunca mais foi um zoo
o Pão de Açúcar não é doce, mas é um sonho sua paisagem
na Vista Chinesa não precisa apertar os olhinhos, mantenha-os bem abertos
o Jardim é Botânico
e no Parque Lage ninguém levanta laje ou puxadinho

Vai rolar baile funk na passarela do samba
o carnaval é arte popular, não é mais só a festa da carne, mas farra da bebida
e a festa da avenida é na TV pra gringo ver
o barracão está mais para elite
a Princesinha do Mar está imprópria
já não é mais aquela garotinha pura e inocente
nem as meninas no calçadão…

O Maraca não é nosso
temos a maior torcida, mas os estádios vazios
todo campo de várzea tem mais craques e crack
e “todo camburão tem um pouco de navio negreiro”
“nossa terra tem palmeiras”, tiros de traçante e beira mar
“as aves que aqui gorjeiam”, as pipas empinadas, os meninos-aviõezinhos
o Morro Dois Irmãos, o Túnel Dois Irmãos, o Mirante Dois Irmãos
mas nos falta muita camaradagem

A moça de penduricalhos e salada de fruta na cabeça não é nossa
mas viva o “Chica Chica Boom Chic”

O Rio de Janeiro continua, imagina, mesmo depois da Copa.

http://migre.me/lI7cE

no meio do caminho tinha uma praça

A Praça da Bandeira não tem mais praça nem bandeira
não tem água empoçada, não tem ordem, não tem nada
o rock fica confinado num beco sujo, marginal e prostituto
de um lado galinhas, de outro lado galeto
praça onde não se brincava, onde a fome dormia e a violência passeava
os dedos ficam, as jóias vão
as notas vão e a carteira no chão
praça apenas de passagem
olha para baixo e obras
olha para cima, sem bandeira: promessas e sonhos
e hoje um dia nublado.

jogo

Dominamos o fogo
perdemos controle
aprendemos a controlar o fogo
perdemos controle

dominamos outras espécies
fomos surpreendidos por elas
impomos mais força e dominamos
perdemos controle

dominamos a terra
consumimos e exploramos
criamos recursos artificiais
perdemos controle

o coração não domina a mente
a mente não domina o coração
agimos sem razão
perdemos controle.

pensando…

Nem nossa própria mente nós podemos dominar, mas acima disso: devemos saber e buscar harmonizar.

. . .

É melhor sentir medo, mas se sentir vivo, do que ter coragem e ficar parado. O medo pode incomodar e impulsionar, enquanto que a coragem pode te fazer acomodar.