real realidade

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A realidade é aumentada. Tanto é, que é distorcida a real realidade das coisas.

Com quem a gente fala, o que a gente fala, o que a gente é. É real ser e se reinventar, como também é real não saber o que se é, se questionar. É real absorver, falar, dar e receber, é real levar na cara. Parece que não, mas às vezes batemos com a cara na mão, para ver se a figura de linguagem muda de linguagem, ou se a linguagem muda de figura, ou se passa a figurar uma nova realidade. Não entendeu? Tudo bem, quase às 2 horas da madrugada até a dor não quer saber da cabeça. De trocadilhos infames e rimas de sucesso, perdem-se e ganham-se milhões. A real é essa.

Mas quão elástica é essa realidade, que só aumenta, em vez de se tornar mais forte, pura e verdadeira? Crescer em tamanho não torna a realidade mais importante, apenas mais imponente. Mas épicas e grandiosas foram também tamanhas as derrotas da humanidade. “Quanto maior, maior a queda.” Então quanto mais for aumentada, mais real será a queda da realidade. Ou será apenas uma piada de si mesma, rir de si a realidade?

Trocando em miúdos, cá entre nós, somamos pequenas mentiras, constituídas em verdades técnicas, que passam a existir no campo visual, no plano conceitual, nas desavenças e críticas, no afastamento dos corpos reais. Caem por terra tais mentiras, pois aumentam a crise. É real a crise existencial agravada por dislexia generalizada aprofundada no esconder-se atrás de telas, não olhar nos olhos, interpretar secos textos, sem entender contextos ou tom. A crítica que critica leva na mesma moeda.

É real a realidade efêmera. Tão grandiosamente bela, passageira, bela, sorrateira, apenas bela. Fraca e bela. A realidade faz falta. Mas bela mesmo é a realidade que é grande em si, e não aumentada.

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mais gavetas do que mentes abertas

Há um certo ar de ironia na vida, quando em meios e tempos contemporâneos, de acesso a tudo, liberdade sobre tudo, ainda somos contraídos em herméticos pensamentos. Em que há sempre mentes vazias, mentes fechadas, mentes sofridas, pessoas na esquiva, energia perdida, frustrações, esforços em vão. Mais fácil fecharem as portas, as janelas, dizer um não, aceitar um não, do que ouvir boas opiniões. Se “de boas intenções o inferno está cheio”, então de boas ideias as gavetas também estão. 

De teias de aranhas temos que tecer uma trama de ramificadas possibilidades. Não uma armadilha, mas uma bela, positiva e sutil fuga ao infinito. Abrir as gavetas e botar as ideias em prática. Abrir a mente e botar a vida em prática. 

eu erro

Cansado dos xingamentos, do calor das pessoas e do calor da cidade.
As vidas lotadas de falta de sentido e as dúvidas.
A vida é um ônibus? De passagem? Ou dê passagem?
Cansado de ter que escolher e não saber por onde começar.
Não entendo porque tanto rivotril ou dorflex, enquanto as pessoas nem sequer bebem água direito, ou de boa qualidade.
Escadas para subir, barrancos por cair.
Andadores artificiais, preguiça até de chamar o elevador.
As obras que nunca acabam, e as necessidades básicas nunca sanadas.
Furar fila, entras no ônibus sem pagar, pular a roleta ou entrar pela janela.
Quando lembrar de dar bom dia já é quase hora de ir embora.
Cansado dos tiros, da falsa segurança, cansado do medo.
Pessoas cheias de razão, cheias de si.
Virar a cara para o próximo, não ter a mão generosa, e ainda ser pedinte mal agradecido.
Cartazes nas ruas que não dizem nada.
Pessoas que não conversam com livros.
Digitalização da banalidade.
Eu erro, tu erras, ele erra, nós erramos, vós errais, eles erram.
Eu era, eles eram…

o Rio de Janeiro continua

O Largo dos Leões não tem leão algum
em Jacarepaguá, o jacaré no seco anda…
a Praça Paris não tem nada do charme europeu
o Largo da Segunda-feira está lá todos os dias, mesmo nas folgas
o Engenho Novo não é engenho, e tão velho quanto o velho
o antigo Jardim Zoológico nunca mais foi um zoo
o Pão de Açúcar não é doce, mas é um sonho sua paisagem
na Vista Chinesa não precisa apertar os olhinhos, mantenha-os bem abertos
o Jardim é Botânico
e no Parque Lage ninguém levanta laje ou puxadinho

Vai rolar baile funk na passarela do samba
o carnaval é arte popular, não é mais só a festa da carne, mas farra da bebida
e a festa da avenida é na TV pra gringo ver
o barracão está mais para elite
a Princesinha do Mar está imprópria
já não é mais aquela garotinha pura e inocente
nem as meninas no calçadão…

O Maraca não é nosso
temos a maior torcida, mas os estádios vazios
todo campo de várzea tem mais craques e crack
e “todo camburão tem um pouco de navio negreiro”
“nossa terra tem palmeiras”, tiros de traçante e beira mar
“as aves que aqui gorjeiam”, as pipas empinadas, os meninos-aviõezinhos
o Morro Dois Irmãos, o Túnel Dois Irmãos, o Mirante Dois Irmãos
mas nos falta muita camaradagem

A moça de penduricalhos e salada de fruta na cabeça não é nossa
mas viva o “Chica Chica Boom Chic”

O Rio de Janeiro continua, imagina, mesmo depois da Copa.

http://migre.me/lI7cE

jogo

Dominamos o fogo
perdemos controle
aprendemos a controlar o fogo
perdemos controle

dominamos outras espécies
fomos surpreendidos por elas
impomos mais força e dominamos
perdemos controle

dominamos a terra
consumimos e exploramos
criamos recursos artificiais
perdemos controle

o coração não domina a mente
a mente não domina o coração
agimos sem razão
perdemos controle.

pensando…

Nem nossa própria mente nós podemos dominar, mas acima disso: devemos saber e buscar harmonizar.

. . .

É melhor sentir medo, mas se sentir vivo, do que ter coragem e ficar parado. O medo pode incomodar e impulsionar, enquanto que a coragem pode te fazer acomodar.

certo?

Por que é tão difícil seguir a linha, manter a cabeça em ordem, o centramento astral, o equilíbrio e não deixar um sentimento ruim se desenvolver?

O que custa as pessoas entenderem que às vezes só quero fazer o certo, o bem de uma forma que acredito ser digna, correta, sem precisar usar artifícios e atalhos ou gambiarras? Fazer errado pra dar certo não é comigo.

É tão errado assim querer acertar?

molde

Dedos que apontam não medem caráter
medidas extremas às vezes fogem do controle
pesos às vezes são só de papel
uma hora peso morto
uma hora peso leve
às vezes sobrecarregam as costas

o anel é forjado à medida do dedo
mas é o dedo que vai se moldando ao longo do tempo

atitudes podem transformar futuros
moldes podem tolher possibilidades.