galáxias


Somos seres humanos, mundanos, munidos de energia, matéria e um monte de coisas inexplicáveis. Somos forças e fraquezas, sujeitos a forças e vetores que nos prendem ao chão ou jogam aos quatro ventos. Rompemos continentes e movemos montanhas, repartimos e achamos que descobrimos a menor das menos partes que nos compõem, e saímos da esfera terrestre. Partimos rumo ao desconhecido universo da mente humana e seus segredos. 

Fomos atrás de sonhos e aprendemos o poder de acredirar. 

Somos pequenos perto da imensidão das galáxias. Nossa insignificante proporção é que nos torna tão importantes em significado. Ao mesmo tempo que somos compostos por moléculas e outras coisinhas tão nano que nem conseguimos medir, o universo é composto por milhares de seres, como eu, como você, como outras espécies e seres que talvez nunca iremos esbarrar pelo caminho, mas existem, coexistem. 

Não somos nada sem os menores e os maiores ao nosso lado e acima de nós. Como também a imensidão das galáxias não seria a mesma sem o brilho dos nossos olhos. 

eu serei a hiena


… então percebi que ainda sou muito criança, muito velho, que sou eu mesmo a falta que sinto por sentro. Fui e voltei, cai, ri disso tudo, cresci de mais, amadureci de mais, não totalmente ainda. Mas uma voz me lembra que é assim que se vive a vida, conquistando um pouco mais de mim a cada dia. Sou quase fã de mim mesmo. Uns dias na primeira fila, outros dias no fundo da arquibancada. Fã, ídolo, crítico, companheiro, patrocinador, carrasco. Quem sabe ainda sou uma garotinha? Irei rir de mim mesmo ainda, e da vida.

as cortinas da cidade


A cidade é cheia de olhares, pontos de vista, pontos de fuga, em meio ao caos a calmaria, no meio da paz a disparidade barulhenta de ruídos calorosamente tensos. A cidade não dorme porque as pessoas não param. Parei de usar relógio porque às vezes as horas não fazem sentido. Entre becos escondem-se segredos e perigos, revelam-se certezas, cultivam-se prazeres, roubam-se bens, corações ou beijos, dança a molecada, inventam-se novas brincadeiras. Portas e janelas, abrem-se ao mundo, formando mentes de intelecto observador, ávidos por mudanças de paradigmas, ou mesmo fraca gente que aceita passivamente cada sermão que a vida lhes dá. Estender uma mão é como abrir os olhos e enchergar uma nova cidade, cheia de suas cortinas, coloridas, opacas, com ou sem blecaute, que escondem ou que instigam a curiosidade. A cidade é muitas outras por trás de suas cortinas. 

no meio do caminho


“No meio do caminho tinha uma pedra.” No meio do caminho eu era a pedra. Atrapalhando o caminho, o meu e de outros, impedindo passagem, dificultando, causando tropeços e encontrões. No meio eu era caminho, no fundo eu era caminho, pelo caminho fui só uma passagem na vida de algumas pessoas, história, memória, lembrança, algo para guardar ou apagar. Eu mesmo deixei pelo caminho lembranças e oportunidades, um pouco de mim e do que sinto, perdi. Meio, parte, incompleto, inconsistente, completamente imperfeito no viver e no ser: errante. E pelo caminho eu sigo, ainda, no meio do caminho. 

mil e uma

Mil lágrimas cairão, borrando a pele, lavando a alma, carregando boas e más lembranças. Mil em mil lágrimas pousarão, banhando o chão do que não lhe pertence. Um mar sob os pés, um mundo no qual se afogar, braçadas incertas em busca da superfície para respirar ou margem para escapar. Mil em mil, mil e uma, mil em uma. Mil vezes dizer e repetir, acertar e errar, mil escolhas e caminhos, mil formas de dizer o que não é óbvio, mil formas de esconder. Mil vezes mil. De tantas mil formas que não cabem em dedos, parecendo tantas quase impossíveis de contar, mas finitas. A cada mil bote mais mil, prolongue as chances e tente o impossível, mas tente. Mil formas de cair significam mil chances de levantar.

todos os textos felizes


Todos os textos são felizes, tristes, desabafos, desencontros, devaneios, brincadeiras, puro coração, são verdades ou brincadeira de mentir. Se eu disser que são verdade acredite. Se acusarem de mentira, eu minto dizendo que não. Eu brinco escrevendo. Se me tocam o coração, espero que toquem e me aproximem do que sou, me revelem. Todos os textos são vida, inteira ou parte, por capítulos fora de ordem cronológica. 

se fez de…


Sentiu falta do sol, e se fez de calor.
Sentiu falta da lua, e se fez de noite.
Sentiu falta do escuro, e se fez de trevas.
Sentiu falta de carinho, e se fez presente.
Sentiu falta de beleza, e se fez de encanto.
Sentiu falta de poesia, e se fez de poeta.

Mas quando sentiu falta de amor, ficou em dúvida.
Por maior que fossem suas forças e fraquezas, não sabia o que fazer.
Até encontrar outro ser em dúvida, e juntos se fizeram de amor.