mais gavetas do que mentes abertas

Há um certo ar de ironia na vida, quando em meios e tempos contemporâneos, de acesso a tudo, liberdade sobre tudo, ainda somos contraídos em herméticos pensamentos. Em que há sempre mentes vazias, mentes fechadas, mentes sofridas, pessoas na esquiva, energia perdida, frustrações, esforços em vão. Mais fácil fecharem as portas, as janelas, dizer um não, aceitar um não, do que ouvir boas opiniões. Se “de boas intenções o inferno está cheio”, então de boas ideias as gavetas também estão. 

De teias de aranhas temos que tecer uma trama de ramificadas possibilidades. Não uma armadilha, mas uma bela, positiva e sutil fuga ao infinito. Abrir as gavetas e botar as ideias em prática. Abrir a mente e botar a vida em prática. 

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aprendiz

Tantos em mim, faces, escolhas, gestos, inúmeras falhas, por onde vou e o que sou. O que posso ou poderei ser? Ângulos e interface, de dentro olho para fora. De fora tento jogar uma luz para ver dentro. Me perco achando que encontrei, depois caio na real. Sou só eu, que não consigo dividir em muitos. Sou muitos, que talvez não caibam num só eu. 

mil e uma

Mil lágrimas cairão, borrando a pele, lavando a alma, carregando boas e más lembranças. Mil em mil lágrimas pousarão, banhando o chão do que não lhe pertence. Um mar sob os pés, um mundo no qual se afogar, braçadas incertas em busca da superfície para respirar ou margem para escapar. Mil em mil, mil e uma, mil em uma. Mil vezes dizer e repetir, acertar e errar, mil escolhas e caminhos, mil formas de dizer o que não é óbvio, mil formas de esconder. Mil vezes mil. De tantas mil formas que não cabem em dedos, parecendo tantas quase impossíveis de contar, mas finitas. A cada mil bote mais mil, prolongue as chances e tente o impossível, mas tente. Mil formas de cair significam mil chances de levantar.

como me sentir?


Como me sinto quando vejo rostos estranhos pelo caminho, nos ônibus, nas ruas, ela estrada, no espelho? Sinto uma mistura de dúvidas, certezas, conclusões precipitadas, histórias inventadas e um certo vazio. Me sinto apenas observador no mundo, irrelevante, sem abrir a boca, sem saber me expressar, apenas mais um na multidão, somando em silêncio. Sinto uma tristeza, um algo incompleto por dentro e por fora. 

embaralhado


Tudo parece misturado em uma enorme caixa sem fundo jogada chacoalhando dentro de um caminhão de mudança pulando entre quebra molhas e buracos. Passei correndo esses dias e achei que vi a vida e oportunidade passando. Não consegui olhar para trás e certificar ou saber se era verdade. Preferi acreditar mais na dúvida do que na certeza. Segui me arrependendo. Não adianta me queixar de não saber mais quem são as outras pessoas ao meu redor, quando dentro de mim nem eu sei mais quem sou. Embaralhado entre imaginar e fazer contas, entre sonhar e acordar em alerta, entre o choro e a raiva. Embaralhado entre entre ser eu e ser migalhas. 

porto seguro

Quando só me restarem dúvidas, farei delas o maior impulso na busca de afirmar o que sou e o que sinto. Se as certezas estiverem abaladas, ao menos em mim terei algum porto seguro, a quem recorrer, consultar e reler aquela sinceridade de criança.

Posso oferecer o melhor que tenho, o melhor que sou, meus sentimentos mais puros, meu olhar e timidez, meu carinho e companheirismo. Mesmo as mãos trêmulas de medo pelo que vier a encarar, podem ao se fechar, agarrando uma a outra, ganhar força e coragem. Minhas mãos e palavras não pagam contas, não mudam opiniões, mas minha presença pode ajudar a ser um escudo contra a sociedade e as babaquices do mundo.

Desejo te segurar pela mão, olhar nos olhos e dizer “vamos juntos”.

Não tenho medo das opiniões alheias, pois contratempos e ignorância, intolerância sempre existirão. Meu medo mora em não poder viver o que mais quero.

Se o mundo ruir, mesmo assim eu ficarei. Se todos forem contra, mesmo assim acreditarei. Chegando meu momento e vou brilhar, seguindo meu rumo, refletindo brilho das energias boas à minha volta.

Vamos brilhar juntos, nós que acreditamos na liberdade. “Vamos viver tudo que há pra viver, nos permitir”, acreditando que qualquer dificuldade no caminho é pequena diante das conquistas que tivemos e ainda poderemos alcançar.

páginas rasgadas

Por onde começar? Talvez por um passado não tão distante onde tudo era mais ou menos diferentemente um pouco igual como hoje. Parece meio louco, parece muito tempo, mas ao olhar no espelho, as marcas no rosto não mudaram tanto assim, os traços. Infinitamente a essência está e estará lá. Que bom.

Acho que daquela época não imaginava crescer, não fazia ideia do que viria, seria e veria. Vim até aqui vivendo, errando e aprendendo, escrevendo em erros, acertando, rabiscando meio torto, fazendo escolhas e acreditando nelas. Tudo que conquistei, tudo que perdi, pessoas que conheci e pessoas que iluminaram os caminhos. Devo muito, não nego, e pago com aquilo que sou e posso ser.

Rasguei rabiscos, rasguei futilidades, revisitei alguém e reli um outro eu muito mais parecido com o que estava faltando em mim hoje: dúvidas! E dúvidas boas que me fazem pensar.

Quando joguei fora páginas de escritos de um passado incerto, joguei apenas aquilo que parecia da boca para fora. Pois nunca abandonei e nunca abandonaria quem fui, por mais dor e choro que houvesse, por menor que fosse, por mais simples ou imaturo, coube a mim seguir em frente e chegar até aqui.

Voltei no tempo. E percebi que avançarei muito mais pelo tempo, preenchido de força e preenchendo de amor e sentimento, de lágrimas, risos, expectavivas, sonhos, idealizações e descobertas.