mais gavetas do que mentes abertas

Há um certo ar de ironia na vida, quando em meios e tempos contemporâneos, de acesso a tudo, liberdade sobre tudo, ainda somos contraídos em herméticos pensamentos. Em que há sempre mentes vazias, mentes fechadas, mentes sofridas, pessoas na esquiva, energia perdida, frustrações, esforços em vão. Mais fácil fecharem as portas, as janelas, dizer um não, aceitar um não, do que ouvir boas opiniões. Se “de boas intenções o inferno está cheio”, então de boas ideias as gavetas também estão. 

De teias de aranhas temos que tecer uma trama de ramificadas possibilidades. Não uma armadilha, mas uma bela, positiva e sutil fuga ao infinito. Abrir as gavetas e botar as ideias em prática. Abrir a mente e botar a vida em prática. 

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se fez de…


Sentiu falta do sol, e se fez de calor.
Sentiu falta da lua, e se fez de noite.
Sentiu falta do escuro, e se fez de trevas.
Sentiu falta de carinho, e se fez presente.
Sentiu falta de beleza, e se fez de encanto.
Sentiu falta de poesia, e se fez de poeta.

Mas quando sentiu falta de amor, ficou em dúvida.
Por maior que fossem suas forças e fraquezas, não sabia o que fazer.
Até encontrar outro ser em dúvida, e juntos se fizeram de amor.

porto seguro

Quando só me restarem dúvidas, farei delas o maior impulso na busca de afirmar o que sou e o que sinto. Se as certezas estiverem abaladas, ao menos em mim terei algum porto seguro, a quem recorrer, consultar e reler aquela sinceridade de criança.

Posso oferecer o melhor que tenho, o melhor que sou, meus sentimentos mais puros, meu olhar e timidez, meu carinho e companheirismo. Mesmo as mãos trêmulas de medo pelo que vier a encarar, podem ao se fechar, agarrando uma a outra, ganhar força e coragem. Minhas mãos e palavras não pagam contas, não mudam opiniões, mas minha presença pode ajudar a ser um escudo contra a sociedade e as babaquices do mundo.

Desejo te segurar pela mão, olhar nos olhos e dizer “vamos juntos”.

Não tenho medo das opiniões alheias, pois contratempos e ignorância, intolerância sempre existirão. Meu medo mora em não poder viver o que mais quero.

Se o mundo ruir, mesmo assim eu ficarei. Se todos forem contra, mesmo assim acreditarei. Chegando meu momento e vou brilhar, seguindo meu rumo, refletindo brilho das energias boas à minha volta.

Vamos brilhar juntos, nós que acreditamos na liberdade. “Vamos viver tudo que há pra viver, nos permitir”, acreditando que qualquer dificuldade no caminho é pequena diante das conquistas que tivemos e ainda poderemos alcançar.

dedos e anéis

Vão e vem os dedos, movem, mexem, afagam e afastam, apontam e reprimem, deduram e chamam, desrespeitam, tocam a ferida ou a comprimem estancando sangramento, espalham tinha e cores, movem até montanhas. Cheio de dedos, de manias, de não me toque, metendo dedo onde não é chamado.

Delicados, dedicados, dedilhados, safados, ousados, intrometidos, metidos, arriscados. Dedo no olho, dedo do meio, dedo no … não! Dedos que brincam e dedos que curam.

Anéis não tem sentimento, tem apenas aquilo que é depositado sobre eles: a intenção, a benção, o sentimento que vem da intenção e não do material.

São os anéis que se vão, pois os dedos, esses e seus toques é que importam, eles que ficam.

Os anéis simbolizam, os dedos são.
Os anéis são matéria, os dedos emoção.
Os anéis prendem, os dedos se soltam.
Os anéis são o sim, os dedos podem ser o que quiserem.

A sintonia fina, o primeiro contato superficial ou já bem íntimo, a agressão ou o carinho, a salvação. O toque suave, teclar uma mensagem de amor, digitar fantasias, materializar arte e sonhos. São meio e instrumento, ferramentas transformadoras, os dedos.

 

natureza humana

Independente de religião, crenças, de qual(ais) deus(es) você acredite, gostos, orientação sexual ou qualquer das variáveis, escolhas ou imposições da vida, somos puro fruto da natureza humana. Em essência nascemos de pais e mães, que podemos ou não conviver com eles parte ou a vida inteira, mas do ato de querer, de fazer, da gestação ao nascimento, e todo crescimento e evolução posterior, é natural de cada espécie, da física, química, genética e uma série de acontecimentos naturais do universo ao nosso redor.

Justificar a gratidão e um abraço por religião ou conhecimento teórico e técnico, ou mesmo justificar a agressão ou violência pelos mesmos fatores, não, isso não faz parte de nenhuma religião ensinar. São escolhas, sentimentos, desejos. São escolhas. Se escolhemos beijar, beijamos, se escolhemos levantar a voz ou a mão em ato agressivo, são atos que doem não só na outra face.

Vivemos em um mundo louco, expressivo, reprimido, intenso, acelerado, bonito, amoroso, mas também muito violento. Mais um atentado, sim mais um, e infelizmente é mais comum do que podemos suportar. Muitas pessoas morrem, outras tantas feridas, e muitas outras perdem chão, familiares e esperanças. Outros mesmo nas diversidades ainda lutam bravamente para fazer o mundo melhor.

Atentados terroristas não são missões de vidas, são escolhas erradas. São interpretações burras ou manipuladas, de mentes fracas, que já mataram dentro de si todas as esperanças.

Desejo, de coração, que tudo isso acabasse, que ninguém mais quisesse ferir ou destruir, e ninguém mais morresse nessas ações trágicas. Espero, e mando energias positivas, que nossa natureza humana fale mais alto, que humanos e outras espécies saibam contornar e fazer o universo e nossas vidas girarem e continuarem de forma linda e duradoura, com esperanças, amor e evolução mental, espiritual e tudo mais do que precisamos.

ver o mundo

O mundo gira tanto
e há tantas formas de enxergá-lo
vira de lado, de cabeça pra baixo e até ao contrário
invertem-se os papéis
cada momento muita coisa muda

ver o mundo é como olhar no espelho
espanto, alegria, encanto, pranto e planos
nós viramos e mudamos
detalhes em nós que só percebemos quando nos abrimos para olhar de uma outra forma

Tudo pode acontecer
ver o mundo
me ver como mundo
e posso girar. 

eu erro

Cansado dos xingamentos, do calor das pessoas e do calor da cidade.
As vidas lotadas de falta de sentido e as dúvidas.
A vida é um ônibus? De passagem? Ou dê passagem?
Cansado de ter que escolher e não saber por onde começar.
Não entendo porque tanto rivotril ou dorflex, enquanto as pessoas nem sequer bebem água direito, ou de boa qualidade.
Escadas para subir, barrancos por cair.
Andadores artificiais, preguiça até de chamar o elevador.
As obras que nunca acabam, e as necessidades básicas nunca sanadas.
Furar fila, entras no ônibus sem pagar, pular a roleta ou entrar pela janela.
Quando lembrar de dar bom dia já é quase hora de ir embora.
Cansado dos tiros, da falsa segurança, cansado do medo.
Pessoas cheias de razão, cheias de si.
Virar a cara para o próximo, não ter a mão generosa, e ainda ser pedinte mal agradecido.
Cartazes nas ruas que não dizem nada.
Pessoas que não conversam com livros.
Digitalização da banalidade.
Eu erro, tu erras, ele erra, nós erramos, vós errais, eles erram.
Eu era, eles eram…

lágrimas de uma noite

Eu vi um menino no rio
olhando para águas turvas e esperanças fluidas
quando reparei, o rio era uma grande poça
o menino não tinha nome
e o que tremulava a água não era vida
mas lágrimas de uma noite escura

eu vi um menino vazio
que nem água turva fluía de seus olhos
através do reflexo fui lembrando:
do nome do menino
e que esperança, para existir
deve brotar de dentro de si

foi então que a noite me ensinou
que uma poça de chuva
de águas turvas
pode refletir aquilo de mais claro que esquecemos de ver
ou aquilo que esquecemos de ser
vislumbrando possibilidades

então vi um menino
de trinta e poucos anos
mas ainda um menino
que sorriu para o próprio reflexo
sem importar o nome
mas com esperanças a assinar pela vida.

antes de ser tarde

Como amor que escorre entre os dedos: sofrimento
como histórias que se acabam antes do tempo,
antes de percebermos já haviam acabado
como comida que acaba antes da fome saciar
expectativas frustradas antes de se tentar: ansiedade
como olhar e querer ver mais do que se pode
tentar acompanhar sem ter a curiosidade ou dúvida
errar sem perceber
ser julgado antes mesmo de qualquer ato
adiantar o relógio para chegar mais cedo
chegar tarde já sabendo a desculpa que vai dar
não se chega ao fim antes da hora
como ter o sentimento de querer ser
ser o que não é, é negar-ser
como nunca estar completo
esconder a idade não faz voltar o tempo
antes de ser tarde
não se arrependa: faça!