mais gavetas do que mentes abertas

Há um certo ar de ironia na vida, quando em meios e tempos contemporâneos, de acesso a tudo, liberdade sobre tudo, ainda somos contraídos em herméticos pensamentos. Em que há sempre mentes vazias, mentes fechadas, mentes sofridas, pessoas na esquiva, energia perdida, frustrações, esforços em vão. Mais fácil fecharem as portas, as janelas, dizer um não, aceitar um não, do que ouvir boas opiniões. Se “de boas intenções o inferno está cheio”, então de boas ideias as gavetas também estão. 

De teias de aranhas temos que tecer uma trama de ramificadas possibilidades. Não uma armadilha, mas uma bela, positiva e sutil fuga ao infinito. Abrir as gavetas e botar as ideias em prática. Abrir a mente e botar a vida em prática. 

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galáxias


Somos seres humanos, mundanos, munidos de energia, matéria e um monte de coisas inexplicáveis. Somos forças e fraquezas, sujeitos a forças e vetores que nos prendem ao chão ou jogam aos quatro ventos. Rompemos continentes e movemos montanhas, repartimos e achamos que descobrimos a menor das menos partes que nos compõem, e saímos da esfera terrestre. Partimos rumo ao desconhecido universo da mente humana e seus segredos. 

Fomos atrás de sonhos e aprendemos o poder de acredirar. 

Somos pequenos perto da imensidão das galáxias. Nossa insignificante proporção é que nos torna tão importantes em significado. Ao mesmo tempo que somos compostos por moléculas e outras coisinhas tão nano que nem conseguimos medir, o universo é composto por milhares de seres, como eu, como você, como outras espécies e seres que talvez nunca iremos esbarrar pelo caminho, mas existem, coexistem. 

Não somos nada sem os menores e os maiores ao nosso lado e acima de nós. Como também a imensidão das galáxias não seria a mesma sem o brilho dos nossos olhos. 

era uma vez

Há muito tempo atrás havia um poeta, e nada mais. Como surgiu o poeta não se sabe. Mas também, sobre outro grande ser não se sabe bem sua história. E nada mais havia.

Na cabeça do poeta começava um certo desconforto, um chamado para despertar da falta de algo que ele não sabia o quê. Então o poeta pôs-se a imaginar. E veio cor, veio ideia, veio dúvida, encanto, poesia, veio vontade e veio vida. Imaginou o que o alimentaria, e como isso viria. Imaginou como seria sua própria forma, altura, pele, seus sentidos e a forma como expressaria aquilo tudo. Começou a tecer uma complexa e harmoniosa teia em uma tela que não era mais branca.

E então abriu a mão, imaginou uma semente pequeninha, planou na palma da mão e a fechou. Regou com seus pensamentos mais criativos, inventivos e amor. Descobriu que queria compartilhar, e se sentiu sozinho, então imaginou mais um pouquinho, outros como ele.

E aquela sementinha em sua mão foi crescendo, fincando raízes, e ele pôde observar diante de si o grande feito que imaginara. Algo complexo, colorido, vivo, e ele não estava mais sozinho. Já não cabia em suas mãos e por outras mãos foi sendo também cultivado. Era maior que ele próprio.

Era uma vez um poeta, que criou o mundo, maior do que achou que pudesse imaginar.

natureza humana

Independente de religião, crenças, de qual(ais) deus(es) você acredite, gostos, orientação sexual ou qualquer das variáveis, escolhas ou imposições da vida, somos puro fruto da natureza humana. Em essência nascemos de pais e mães, que podemos ou não conviver com eles parte ou a vida inteira, mas do ato de querer, de fazer, da gestação ao nascimento, e todo crescimento e evolução posterior, é natural de cada espécie, da física, química, genética e uma série de acontecimentos naturais do universo ao nosso redor.

Justificar a gratidão e um abraço por religião ou conhecimento teórico e técnico, ou mesmo justificar a agressão ou violência pelos mesmos fatores, não, isso não faz parte de nenhuma religião ensinar. São escolhas, sentimentos, desejos. São escolhas. Se escolhemos beijar, beijamos, se escolhemos levantar a voz ou a mão em ato agressivo, são atos que doem não só na outra face.

Vivemos em um mundo louco, expressivo, reprimido, intenso, acelerado, bonito, amoroso, mas também muito violento. Mais um atentado, sim mais um, e infelizmente é mais comum do que podemos suportar. Muitas pessoas morrem, outras tantas feridas, e muitas outras perdem chão, familiares e esperanças. Outros mesmo nas diversidades ainda lutam bravamente para fazer o mundo melhor.

Atentados terroristas não são missões de vidas, são escolhas erradas. São interpretações burras ou manipuladas, de mentes fracas, que já mataram dentro de si todas as esperanças.

Desejo, de coração, que tudo isso acabasse, que ninguém mais quisesse ferir ou destruir, e ninguém mais morresse nessas ações trágicas. Espero, e mando energias positivas, que nossa natureza humana fale mais alto, que humanos e outras espécies saibam contornar e fazer o universo e nossas vidas girarem e continuarem de forma linda e duradoura, com esperanças, amor e evolução mental, espiritual e tudo mais do que precisamos.

ver o mundo

O mundo gira tanto
e há tantas formas de enxergá-lo
vira de lado, de cabeça pra baixo e até ao contrário
invertem-se os papéis
cada momento muita coisa muda

ver o mundo é como olhar no espelho
espanto, alegria, encanto, pranto e planos
nós viramos e mudamos
detalhes em nós que só percebemos quando nos abrimos para olhar de uma outra forma

Tudo pode acontecer
ver o mundo
me ver como mundo
e posso girar. 

eu erro

Cansado dos xingamentos, do calor das pessoas e do calor da cidade.
As vidas lotadas de falta de sentido e as dúvidas.
A vida é um ônibus? De passagem? Ou dê passagem?
Cansado de ter que escolher e não saber por onde começar.
Não entendo porque tanto rivotril ou dorflex, enquanto as pessoas nem sequer bebem água direito, ou de boa qualidade.
Escadas para subir, barrancos por cair.
Andadores artificiais, preguiça até de chamar o elevador.
As obras que nunca acabam, e as necessidades básicas nunca sanadas.
Furar fila, entras no ônibus sem pagar, pular a roleta ou entrar pela janela.
Quando lembrar de dar bom dia já é quase hora de ir embora.
Cansado dos tiros, da falsa segurança, cansado do medo.
Pessoas cheias de razão, cheias de si.
Virar a cara para o próximo, não ter a mão generosa, e ainda ser pedinte mal agradecido.
Cartazes nas ruas que não dizem nada.
Pessoas que não conversam com livros.
Digitalização da banalidade.
Eu erro, tu erras, ele erra, nós erramos, vós errais, eles erram.
Eu era, eles eram…

no meio do caminho tinha uma praça

A Praça da Bandeira não tem mais praça nem bandeira
não tem água empoçada, não tem ordem, não tem nada
o rock fica confinado num beco sujo, marginal e prostituto
de um lado galinhas, de outro lado galeto
praça onde não se brincava, onde a fome dormia e a violência passeava
os dedos ficam, as jóias vão
as notas vão e a carteira no chão
praça apenas de passagem
olha para baixo e obras
olha para cima, sem bandeira: promessas e sonhos
e hoje um dia nublado.

jogo

Dominamos o fogo
perdemos controle
aprendemos a controlar o fogo
perdemos controle

dominamos outras espécies
fomos surpreendidos por elas
impomos mais força e dominamos
perdemos controle

dominamos a terra
consumimos e exploramos
criamos recursos artificiais
perdemos controle

o coração não domina a mente
a mente não domina o coração
agimos sem razão
perdemos controle.

olhar

E quando olho para trás
não consigo não olhar para frente
e mesmo não sei olhar para frente
sem pensar no que ficou para trás

e vivo um presente tenso
pensando num futuro intenso
consequente de um passado recheado de desacertos

prefiro então olhar além
com a esperança de saber escolher,
mudar e viver o que vier a acontecer.