desandar

Deixa desandar a baixaria
que de samba o povo faz alegria
deixa destilar a cachaça

deixa prender o cabelo
no calor do corpo belo
deixa descabelar
o povo quer brincar

com o sol que arde
ou na chuva que brinda

seja pé no chão
seja sandália rasteira

deixa desandar a alegria
que na mistura de ritmo
se faz arte, se faz vida
deixa brincar
deixa sacanear
embaralhar pés e braços, abraços
deixa beijar
deixa abraçar
levantar a saia ao rodar
deixa deixar.

o Rio de Janeiro continua

O Largo dos Leões não tem leão algum
em Jacarepaguá, o jacaré no seco anda…
a Praça Paris não tem nada do charme europeu
o Largo da Segunda-feira está lá todos os dias, mesmo nas folgas
o Engenho Novo não é engenho, e tão velho quanto o velho
o antigo Jardim Zoológico nunca mais foi um zoo
o Pão de Açúcar não é doce, mas é um sonho sua paisagem
na Vista Chinesa não precisa apertar os olhinhos, mantenha-os bem abertos
o Jardim é Botânico
e no Parque Lage ninguém levanta laje ou puxadinho

Vai rolar baile funk na passarela do samba
o carnaval é arte popular, não é mais só a festa da carne, mas farra da bebida
e a festa da avenida é na TV pra gringo ver
o barracão está mais para elite
a Princesinha do Mar está imprópria
já não é mais aquela garotinha pura e inocente
nem as meninas no calçadão…

O Maraca não é nosso
temos a maior torcida, mas os estádios vazios
todo campo de várzea tem mais craques e crack
e “todo camburão tem um pouco de navio negreiro”
“nossa terra tem palmeiras”, tiros de traçante e beira mar
“as aves que aqui gorjeiam”, as pipas empinadas, os meninos-aviõezinhos
o Morro Dois Irmãos, o Túnel Dois Irmãos, o Mirante Dois Irmãos
mas nos falta muita camaradagem

A moça de penduricalhos e salada de fruta na cabeça não é nossa
mas viva o “Chica Chica Boom Chic”

O Rio de Janeiro continua, imagina, mesmo depois da Copa.

http://migre.me/lI7cE

situação

Cito a mim mesmo
pois ao citar outros sinto-me concordando
que a verdade alheia me ensina bastante

cito a mim mesmo sim
não por prepotência
talvez por tentar convencer a mim mesmo

cito a mim mesmo
quando não encontro nos outros
a sabedoria das minhas dúvidas

cito a mim mesmo
porque hei de aprender um dia
enquanto não, limpo meu próprio umbigo.

Citando outro: Guilherme Arantes – “Hei de aprender”

 

Citando eu mesmo: Rogério Marçal – “Encanto poético”

mirradinho

Samba de uma nota
nota só, só uma nota
samba de malandro
samba de solidão
samba de roda
samba canção

note a cadência
no requebra
na ginga
samba miudinho
samba de gringo
samba pra inglês ver
samba na escola
escola de samba

samba no pé é a grande escola
miudinho ou espalhafatoso
espontâneo é livre, leve e solto

mirradinho corpo de moleque
letrado na arte do samba
bamba no barracão
na passarela

na cadência bonita
da mulata que deixa doido
mestre-sala, do passista ao turista
a maestria rodopiante da porta-bandeira
coloridas baianas

pelo riso, sorriso feliz
gargalhada escancarada
festa da felicidade
esquece o mirradinho salário
sofrido dia-a-dia
pequenino perto de tamanha grandeza
que é a magia do samba

que amor é esse então
que encanta multidões arrastando bloco
que sacrifício e dor tornam-se forças
pra cobrir de colorido o samba sambado
cantado e encantado
preenchendo toda a avenida.

retrofoguetes

Regurgitar-se, retroalimentar-se, enxergar de dentro para fora, experiência máxima, experimentação, vivência, relevância. Vivência sem violência, receptividade sem passividade, interconectividade profusa, hiperatividade confusa, mega uploads, downloads de informações que nos rodeiam, nos cercam, nos jogam de pernas pro ar literal, física e megalomaniacamente falando. Falando, tocando, trocando, vivendo, absorvendo, osmose de informações, mais estímulos por minuto que batimentos cardíacos, mais rápido que os olhos conseguem acompanhar.

Baitas baques batucados: “tum tum” no cérebro, mente, corpo e alma em agitação, louca confusão. Muitas abas abertas, música aqui, vídeo ali, textos, sites, blogs, redes sociais, janelas, chats, tudo ao mesmo tempo agora, experimentando bandas novas (novas ao menos para mim ou nem tanto), de fato experimentando novas interpretações e comportamentos, compartimentos, mantimentos, até novas e boas amizades. Amizade não se experimenta, de certo, amizade se vive, se ama. Perdi o texto que estava na minha cabeça ontem que viraria um post no blog, se perdeu no meio do texto de ontem mesmo, virou vapor, ideia que se encontra em outras esferas, camadas do meu cérebro e talvez em algum momento volte a superfície.

“Computadores fazem arte, artistas fazem dinheiro”. Dinheiro fazendo arte, artistas fazendo computadores que mancham de vermelho notas de dinheiro em máquinas que aprisionam um bem ridículo que cismamos em dizer que é nosso. E o que é nosso senão nós mesmo e somente aquilo que podemos carregar não em nossas mãos, mas em nosso ser?

Retrofoguetes atiram para todos os lados e até em si mesmos. Formidável é essa família musical que nos preenche de sábias palavras daquilo que por hora volta e meia esquecemos, em doce voz, cativantes melodias. Música nos preenche como trilha sonora, mais uma camada, sutil e linda que se mescla naturalmente na existência entre tantos outros estímulos, mas que passa um toque, massageando sentimentos de forma especial, não passa em branco.

Solto nada está, até porque no meio de tanta confusão na teia se confundem os caminhos, os sentidos e objetivos e de tão densa fica, tudo se sustenta como uma favela cultural, rica. A favela é cultura popular e é rica enquanto durar, e dura enquanto é rica, continua o ciclo de irregularmente se retroalimentar.

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Um pouco de continuação do post: novas conexões.

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Ouvindo: Retrofoguetes, Formidável Família Musical

híbrido

Era para se intitular “entre CDs e HQs”, mas para que ser tão literal? Bem, já que entreguei de bandeja e estraguei a surpresa, vamos lá ao que interessa.

Final de semana passou e aconteceram alguns fatos que me fizeram repensar coisas. Na sexta-feira fui encontrar o povo louco e rabiscador no Chopp Criativo, acabou que me permiti ficar até um pouco mais tarde pela rua na companhia de bons, velhos e novos amigos. E isso foi ótimo. Nem parecia que tinha ido dormir  2 e 4 horas nas madrugadas anteriores, e naquela noite chegava em casa por volta de 1 hora, parece que o cansaço só viria mesmo nos breves descansos de sábado ou domingo, e assim foi.

Sábado acordei um pouco cedo e fui ao Méier levar umas encomendas de buttons e passear um pouco, passando pela Metrópolis ver umas revistas em quadrinhos. Antes passei pela Outside CDs e incrivelmente estava fechada. Fui dar um rolé rápido e ver a muvuca já da Páscoa. Voltei pra casa ligeiro debaixo de sol, almocei, tomei um banho e voltei para a segunda maratona pelo Méier. Dei um mega pulo novamente na Matrópolis e comprei HQs (velhas e nova) e saí doido por um copo de água salvador, ufa! Depois de andar um pouquinho voltei a Outside para ver a farra que o povo iria fazer lá botando um som e jogando conversa fora. Realmente “outside”, parece uma realidade alternativas, fora do tempo, sem um tempo definido, sem preocupações externas viciosas e viciantes, sufocantes. Punks, alternativos, caretas, despreocupados, cansados, limpos ou suados, surrados, não importa, são (somos) pessoas de verdade, cada história…

Sábado teve a tal “hora do planeta“, talvez eu não tenha economizado tanta energia ali no horário correto, mas me permiti então um final de semana inteirinho sem ligar o computador, offline. Ou melhor: online, conectado comigo mesmo, café da manhã bom com a Lili, namorando, programas leves na TV, filmes simples, revistas em quadrinhos, preguiça, passeio pelo CCBB, pizza e cabeça leve.

A vida muda em atos simples que tomamos.

Segunda-feira reencontrei um grande amigo pra jogar conversa fora e pegar um material para produzir. Milkshake no Bob’s é algo tão antigo mas tão bom.

E para fechar esse papo todo, nada mais analógico que encontrar um povo mega legal, divertido e interessado por realmente fazer a diferença. Fui encontrar o pessoal do grupo Lomo-RJ no Espaço de Cinema do Estação em Botafogo pra ver um projeto de fotografia analógica. Cheguei, fui no sebo (sebo é sempre muito bom!), depois sentei, abri meu livrinho, li um pouco e logo foram chegando. Nem me toquei da hora, minha namorada quase chegando em casa e eu saindo ainda de Botafogo pra pegar um ônibus pra Vila Isabel e depois Lins.

Ah, mas porque “entre CDs e HQs”? HQs é óbvio, terminei finalmente de ler “Fábulas #7“, voltei a começar a ler “The Umbrella Academy” e ainda tem mais um monte de revistas para ler. E estou aqui ouvindo CD da banda Nocturno, alternativa, do Eduardo Pletsch (da Outside CDs). Que álbum, excelentes composições, produção, tudo impecável, muito bom. Quem quiser ouvir, recomendo que vá pegar o CD direto com ele.

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Ouvindo: Nocturno

olhos fechados

Cospe na minha cara
eu não gosto de você

entra, faz graça
sorri, faz pirraça

ofereço-me a tapa …

quero brigar até aprender
na marra …

não gosto do meu eu
quando não sou eu mesmo
quero brigar até aprender
na marra …
não gosto do que vejo
não sou eu no espelho
quero brigar até aprender
na marra …

quebro em mil pedaços
estilhaços cravados

fere, na raça
machuca, de graça

ofereço-me a tapa …

tanto … tempo
olhos fechados …
não me … conheço
corpo trancado

não gosto do meu eu
… não sou eu mesmo
quero brigar …
na marra …
não gosto do que vejo
na marra …
não sou eu no espelho
na marra …

chinfrim seus modos

pegue aquele reggae roots no armário
vista seu leão na camiseta
de manga rota e ao contrário

pegue meia tulipa de samba
calçado lustroso
penteado nobre e vistoso

ora bolas
chinfrim seus modos
ora bolas … ora bolas
modos magistrais

rasge o velho rock jeans
arrasando corações
43 de James Jean

ora bolas
chinfrim seus modos
ora bolas … ora bolas
misturas magistrais

amor a música

Mas hoje por favor… vem me fazer feliz. Vem, vem brilhar por entre estrelas e neons azuis, só por essa noite vem.” ( Columbia – Não )

Hoje quis me dedicar um tempo como há muito não fazia, apenas deitar, e mesmo na ausência do discman, trouxe o MacBook para a cama, carreguei algumas boas músicas e me deliciei em poesias que me tocam o coração. Isso me trás várias lembranças, pois como comecei a apreciar música de uma certa forma meio tarde na vida, o fato de cada nova descoberta musical vem com grande empolgação e expectativa para mim. É como um ritual antigo, até arcaico se levarmos em conta os novos rumos da tecnologia. Sim, desde lá atras da época de fita K7, ajoelhado ou sentado ao lado da cama ouvindo rádio até vir CD e internet, mas tudo sempre plugado na musica. Era ouvir na rádio o programa do João Gordo e outras tosqueiras e procurar na internet um monte de bandas de nomes estranhos, de punks a coisas muito engraçadas. E o “ruim” na opinião dos outros era como um grande sorriso que se abria como criança em meu rosto.

O ritual seguiu, e depois de mesadas e primeiros salários, cada CD comprado ou ganho era um brilhar de olhos, de abrir lentamente, sentir o cheirinho de plástico e encarte impresso, descobrir as primeiras cores, formas e arte, colocar o CD no discman preto do meu irmão, e mesmo depois da época dos MP3 players, comprei meu primeiro discman, azul e branco, parecia mágica! Mas foi ali, que meu companheiro deitava ao meu lado na cama, repousava um CD bruto, pesado, ou leve e lúdico, mas um momento intocável, o meu infinito particular.

Graças a estar sempre entrando em lojas para procurar CDs, graças a existir a Outside CDs, no Méier, trocando ideias com o lendário Eduardo Pletsch, que fui preenchendo minhas prateleiras de álbuns, conhecendo novas bandas. Depois de muito tempo veio meu iPod, e internet mais rapidinha (nem tanto assim), mas se tornou quase uma meta de passar todos meus CDs para o brinquedinho branco tocador de músicas, estou chegando lá.

Mas faltava algo. Mesmo que volta e meia parasse um pouco diante da MTV, Multishow, VH1, PlayTV, internet me deparando com algumas boas e criativas bandas e artistas, me faltava a mesma sede de me embrenhar no baú nadar como um descobridor em busca de sorrisos e boas palpitações no peito. Ontem na internet abri o bom e velho Trama Virtual e esbarrei em algumas velhas bandas que ouvir, hoje, confesso, que tirei uma lasquinha da boa internet do trabalho e baixei algumas coisas, das antigas, me deparei até com novos sons e álbuns de artistas que me encantam, e pesquei alguns nomes novos. Pronto, foi isso, salvei tudo no pendrive e trouxe para casa, para recarregar minha estante virtual de boa música.

Acabei de ouvir um EP de 2004 da bela e doce Columbia, letras maravilhosas, melodias suaves, leves, mas fortes, cheias de boas mensagens. E me preparo para ouvir o tão aguardado (por mim) primeiro CD da banda Manacá. Aguardado, porque tem alguns meses (anos) que me coçava em ver que foi lançado nas lojas e peguei a primeira vez e não comprei… claro que me arrependi, então semana passada nosso encontro aconteceu novamente e não me permiti pensar duas vezes, peguei e não larguei mais. O independente, que comprei na época direto com o guitarrista Luiz César Pintoni é maravilhoso, o show então, se palavras. Por isso minhas expectativas sobre o álbum completo são as maiores possíveis, e tenho certeza que me reservam boas surpresas.

Bem, então é isso, talvez eu volte para comentar sobre essa experiências sonora/artística, mas se não vier liberar minhas opiniões, mesmo assim saibam que as palavras floreiam e soam vivas e vibrantes no meu peito e mente.

Vento que bate, leva embora / pra longe / a tristeza que agora não posso / mais carregar / … / ai que esse amor de tão grande/ acaba por me matar.” ( Manacá – Lua estrela )

#Ouça Boa Música. =)

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> Ouvindo: Columbia, Manacá

faça o que tu queres

Estava lendo um artigo em uma revista de crítica de arte ( Tatuí ), onde havia um diálogo entre artistas e críticos, sobre realidade, posicionamento, artistas e curadores de arte. Uma artista argumentando sobre a arte sendo aparada, formatada, de acordo com curadores, críticos e os próprios artistas se permitindo isso, sendo instruídos e limitando-se a questões institucionais, canais e meios de divulgação, instituições de ensino e instituições financiadoras. Muitos artistas se permitem isso, outros sabem não se curvar e driblar, buscando seus caminhos.

A questão me fez pensar várias coisas…

Entre artistas, não-artistas, arte, não-arte, oficio, dia-a-dia… o mesmo se apresenta na nossas vidas diariamente. A “TV lhe diz o que fazer, lhe diz do que gostar, lhe diz como viver” ( Inocentes – Rotina ). As nossas escolhas, votação, eleições, política, por exemplo, são proporcionalmente fraudes, e convivemos com isso. As instituições de ensino, as mais renomadas e com anos e anos de tradição, são vagas, vagas lembranças do que realmente é ensinar e aprender, pílulas para “aprender a se virar no dia-a-dia pessoal e profissional” (mais profissional, “ganhe dinheiro, mas ninguém disse que seria fácil”).

As escolhas, reais, somos nós que fazemos. Se alguém chega tolindo tal informação, customizando e encolhendo, escondendo dados, entregando algo para fazermos, sem pensarmos… desconfie! Se alguém não lhe permite entrar em algum local, evento, ocasião… desconfie. Se alguém lhe olha estranho na rua, pois sua calça não está de acordo com tal… desconfie. ( Noção de Nada – Trajes e comportamentos de acordo com os eventos e as ocasiões ).

Até quando sofrer?

Um grito, um tapa na cara, ou nada tão doloroso assim, mas igualmente radical e verdadeiro: desconfie, olhe nos olhos, encare, ou simplesmente dê as costas e siga seu caminho. Melhor fazer pouco, ignorando, descartando, deletando opiniões ridículas, bestas e vazias, que fiquem para trás. Cabe então a cada um de nós trilhar seu caminho, passar por cima dos obstáculos, aprender, aprender sempre e mais, e saber extrair o melhor para poder crescer, compartilhar, argumentar e defender direitos, ideais e opiniões.

Tudo é da lei, quando a lei que nos rege é sincera e verdadeira.