mais gavetas do que mentes abertas

Há um certo ar de ironia na vida, quando em meios e tempos contemporâneos, de acesso a tudo, liberdade sobre tudo, ainda somos contraídos em herméticos pensamentos. Em que há sempre mentes vazias, mentes fechadas, mentes sofridas, pessoas na esquiva, energia perdida, frustrações, esforços em vão. Mais fácil fecharem as portas, as janelas, dizer um não, aceitar um não, do que ouvir boas opiniões. Se “de boas intenções o inferno está cheio”, então de boas ideias as gavetas também estão. 

De teias de aranhas temos que tecer uma trama de ramificadas possibilidades. Não uma armadilha, mas uma bela, positiva e sutil fuga ao infinito. Abrir as gavetas e botar as ideias em prática. Abrir a mente e botar a vida em prática. 

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dedos e anéis

Vão e vem os dedos, movem, mexem, afagam e afastam, apontam e reprimem, deduram e chamam, desrespeitam, tocam a ferida ou a comprimem estancando sangramento, espalham tinha e cores, movem até montanhas. Cheio de dedos, de manias, de não me toque, metendo dedo onde não é chamado.

Delicados, dedicados, dedilhados, safados, ousados, intrometidos, metidos, arriscados. Dedo no olho, dedo do meio, dedo no … não! Dedos que brincam e dedos que curam.

Anéis não tem sentimento, tem apenas aquilo que é depositado sobre eles: a intenção, a benção, o sentimento que vem da intenção e não do material.

São os anéis que se vão, pois os dedos, esses e seus toques é que importam, eles que ficam.

Os anéis simbolizam, os dedos são.
Os anéis são matéria, os dedos emoção.
Os anéis prendem, os dedos se soltam.
Os anéis são o sim, os dedos podem ser o que quiserem.

A sintonia fina, o primeiro contato superficial ou já bem íntimo, a agressão ou o carinho, a salvação. O toque suave, teclar uma mensagem de amor, digitar fantasias, materializar arte e sonhos. São meio e instrumento, ferramentas transformadoras, os dedos.

 

ver o mundo

O mundo gira tanto
e há tantas formas de enxergá-lo
vira de lado, de cabeça pra baixo e até ao contrário
invertem-se os papéis
cada momento muita coisa muda

ver o mundo é como olhar no espelho
espanto, alegria, encanto, pranto e planos
nós viramos e mudamos
detalhes em nós que só percebemos quando nos abrimos para olhar de uma outra forma

Tudo pode acontecer
ver o mundo
me ver como mundo
e posso girar. 

eu erro

Cansado dos xingamentos, do calor das pessoas e do calor da cidade.
As vidas lotadas de falta de sentido e as dúvidas.
A vida é um ônibus? De passagem? Ou dê passagem?
Cansado de ter que escolher e não saber por onde começar.
Não entendo porque tanto rivotril ou dorflex, enquanto as pessoas nem sequer bebem água direito, ou de boa qualidade.
Escadas para subir, barrancos por cair.
Andadores artificiais, preguiça até de chamar o elevador.
As obras que nunca acabam, e as necessidades básicas nunca sanadas.
Furar fila, entras no ônibus sem pagar, pular a roleta ou entrar pela janela.
Quando lembrar de dar bom dia já é quase hora de ir embora.
Cansado dos tiros, da falsa segurança, cansado do medo.
Pessoas cheias de razão, cheias de si.
Virar a cara para o próximo, não ter a mão generosa, e ainda ser pedinte mal agradecido.
Cartazes nas ruas que não dizem nada.
Pessoas que não conversam com livros.
Digitalização da banalidade.
Eu erro, tu erras, ele erra, nós erramos, vós errais, eles erram.
Eu era, eles eram…

lágrimas de uma noite

Eu vi um menino no rio
olhando para águas turvas e esperanças fluidas
quando reparei, o rio era uma grande poça
o menino não tinha nome
e o que tremulava a água não era vida
mas lágrimas de uma noite escura

eu vi um menino vazio
que nem água turva fluía de seus olhos
através do reflexo fui lembrando:
do nome do menino
e que esperança, para existir
deve brotar de dentro de si

foi então que a noite me ensinou
que uma poça de chuva
de águas turvas
pode refletir aquilo de mais claro que esquecemos de ver
ou aquilo que esquecemos de ser
vislumbrando possibilidades

então vi um menino
de trinta e poucos anos
mas ainda um menino
que sorriu para o próprio reflexo
sem importar o nome
mas com esperanças a assinar pela vida.

antes de ser tarde

Como amor que escorre entre os dedos: sofrimento
como histórias que se acabam antes do tempo,
antes de percebermos já haviam acabado
como comida que acaba antes da fome saciar
expectativas frustradas antes de se tentar: ansiedade
como olhar e querer ver mais do que se pode
tentar acompanhar sem ter a curiosidade ou dúvida
errar sem perceber
ser julgado antes mesmo de qualquer ato
adiantar o relógio para chegar mais cedo
chegar tarde já sabendo a desculpa que vai dar
não se chega ao fim antes da hora
como ter o sentimento de querer ser
ser o que não é, é negar-ser
como nunca estar completo
esconder a idade não faz voltar o tempo
antes de ser tarde
não se arrependa: faça!

o Rio de Janeiro continua

O Largo dos Leões não tem leão algum
em Jacarepaguá, o jacaré no seco anda…
a Praça Paris não tem nada do charme europeu
o Largo da Segunda-feira está lá todos os dias, mesmo nas folgas
o Engenho Novo não é engenho, e tão velho quanto o velho
o antigo Jardim Zoológico nunca mais foi um zoo
o Pão de Açúcar não é doce, mas é um sonho sua paisagem
na Vista Chinesa não precisa apertar os olhinhos, mantenha-os bem abertos
o Jardim é Botânico
e no Parque Lage ninguém levanta laje ou puxadinho

Vai rolar baile funk na passarela do samba
o carnaval é arte popular, não é mais só a festa da carne, mas farra da bebida
e a festa da avenida é na TV pra gringo ver
o barracão está mais para elite
a Princesinha do Mar está imprópria
já não é mais aquela garotinha pura e inocente
nem as meninas no calçadão…

O Maraca não é nosso
temos a maior torcida, mas os estádios vazios
todo campo de várzea tem mais craques e crack
e “todo camburão tem um pouco de navio negreiro”
“nossa terra tem palmeiras”, tiros de traçante e beira mar
“as aves que aqui gorjeiam”, as pipas empinadas, os meninos-aviõezinhos
o Morro Dois Irmãos, o Túnel Dois Irmãos, o Mirante Dois Irmãos
mas nos falta muita camaradagem

A moça de penduricalhos e salada de fruta na cabeça não é nossa
mas viva o “Chica Chica Boom Chic”

O Rio de Janeiro continua, imagina, mesmo depois da Copa.

http://migre.me/lI7cE

no meio do caminho tinha uma praça

A Praça da Bandeira não tem mais praça nem bandeira
não tem água empoçada, não tem ordem, não tem nada
o rock fica confinado num beco sujo, marginal e prostituto
de um lado galinhas, de outro lado galeto
praça onde não se brincava, onde a fome dormia e a violência passeava
os dedos ficam, as jóias vão
as notas vão e a carteira no chão
praça apenas de passagem
olha para baixo e obras
olha para cima, sem bandeira: promessas e sonhos
e hoje um dia nublado.