o poeta pede passagem

O poeta caminha em silêncio pelas ruas, dribla buracos como quem baila num salão. Cruza olhares e imagina histórias como gato emaranhando fios de lã, brincando, tecendo verdades paralelas, amores e colorindo de vidas em páginas não escritas. 

O poeta pede passagem, para enveredar por vias, veias, mentes e corações, corroer dissabores, colorir e perfumar os amores. O poeta paga passagem, tem na sua arte a moeda de troca, oferece seu coração em palavras escritas ou declamadas numa praça, debaixo de uma árvore florida. 

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se fez de…


Sentiu falta do sol, e se fez de calor.
Sentiu falta da lua, e se fez de noite.
Sentiu falta do escuro, e se fez de trevas.
Sentiu falta de carinho, e se fez presente.
Sentiu falta de beleza, e se fez de encanto.
Sentiu falta de poesia, e se fez de poeta.

Mas quando sentiu falta de amor, ficou em dúvida.
Por maior que fossem suas forças e fraquezas, não sabia o que fazer.
Até encontrar outro ser em dúvida, e juntos se fizeram de amor.

era uma vez

Há muito tempo atrás havia um poeta, e nada mais. Como surgiu o poeta não se sabe. Mas também, sobre outro grande ser não se sabe bem sua história. E nada mais havia.

Na cabeça do poeta começava um certo desconforto, um chamado para despertar da falta de algo que ele não sabia o quê. Então o poeta pôs-se a imaginar. E veio cor, veio ideia, veio dúvida, encanto, poesia, veio vontade e veio vida. Imaginou o que o alimentaria, e como isso viria. Imaginou como seria sua própria forma, altura, pele, seus sentidos e a forma como expressaria aquilo tudo. Começou a tecer uma complexa e harmoniosa teia em uma tela que não era mais branca.

E então abriu a mão, imaginou uma semente pequeninha, planou na palma da mão e a fechou. Regou com seus pensamentos mais criativos, inventivos e amor. Descobriu que queria compartilhar, e se sentiu sozinho, então imaginou mais um pouquinho, outros como ele.

E aquela sementinha em sua mão foi crescendo, fincando raízes, e ele pôde observar diante de si o grande feito que imaginara. Algo complexo, colorido, vivo, e ele não estava mais sozinho. Já não cabia em suas mãos e por outras mãos foi sendo também cultivado. Era maior que ele próprio.

Era uma vez um poeta, que criou o mundo, maior do que achou que pudesse imaginar.

dia do poeda

Sabe-se lá se é feliz o poeta, por sonhar, por inspirar, por cair e por fantasiar.

Sabe-se lá quão sofrido é o poeta, que chora, que perde, que se deixa levar pelo que a vida escreve nas veias do caminho.

Sabe-se lá quão esperto é o poeta por enganar o próprio tempo, escrevendo em linhas certas ou tortas, brincar de inventar deuses.

Suspiros poéticos românticos, certezas de amores perfeitos e impossíveis. Poetas escrevem desde a própria cova até as próximas vidas além da imaginação.

Quando não há alegria, inventa. Quando não é amor, encanta. Quando não é verdade, fantasia. Quando é pra enganar, usa a malandragem ou a elegância. Quando não é pra ser… porque não ser?

– – –

Não ouso ser poeta, mas sofro como tal. Não sei das belas palavras, mas gosto de brincar com as ideias. Meus desabafos não passam de ensaios. Não bebo nem uso drogas, então é um pouco mais complicado terminar ou superar as dores. Nunca soube inventar amor. E acho que até hoje aprendo um pouco mais sobre ele.

No dia do poeta, um dia muito triste para mim.

Hoje, 20 de outubro, dia do poeta