no meio do caminho tinha uma praça

A Praça da Bandeira não tem mais praça nem bandeira
não tem água empoçada, não tem ordem, não tem nada
o rock fica confinado num beco sujo, marginal e prostituto
de um lado galinhas, de outro lado galeto
praça onde não se brincava, onde a fome dormia e a violência passeava
os dedos ficam, as jóias vão
as notas vão e a carteira no chão
praça apenas de passagem
olha para baixo e obras
olha para cima, sem bandeira: promessas e sonhos
e hoje um dia nublado.

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pensando…

Nem nossa própria mente nós podemos dominar, mas acima disso: devemos saber e buscar harmonizar.

. . .

É melhor sentir medo, mas se sentir vivo, do que ter coragem e ficar parado. O medo pode incomodar e impulsionar, enquanto que a coragem pode te fazer acomodar.

olhar

E quando olho para trás
não consigo não olhar para frente
e mesmo não sei olhar para frente
sem pensar no que ficou para trás

e vivo um presente tenso
pensando num futuro intenso
consequente de um passado recheado de desacertos

prefiro então olhar além
com a esperança de saber escolher,
mudar e viver o que vier a acontecer.

quer saber?

Acabou já faz algum tempo. Viver de ilusão, aparências, medos mascarados de falsas necessidades, falsas promessas… já deu! Não dá mais para viver no incômodo comodismo, aceitando se rebaixar e adaptar à realidade ao redor. Não mais.

Quer saber: hora de mudar? É agora!

Se as pequenas coisas fazem tanta diferença, as grandes potencializam isso. E cada atitude nossa, nós mesmos somos a própria diferença, somos a transformação e a força para realizá-la.

Quer saber? É isso! Tempo de mudar é agora.

prostituição

grito_montagem

Me sinto usado, usado e abusado. Como um objeto barato e descartável, necessário apenas por não ter nada para pôr no lugar.

Prostituído por um salário que muitos perseguem como sanguessugas. Prendendo as próprias mãos nessas amarras e muletas, marginalizando a própria existência.

Me sinto um verme, coexistindo entre outros vermes e sua suja presença pervertida opressora. Como uma barata na própria sujeira e na sujeira alheia, viva ainda porque ninguém foi lá pisotear, à pesar de tudo.

Estuprado, em todos os sentidos, largado na sarjeta da hipocrisia, alheio, alienado, corrompido e canibalizado.

as vozes não se calam

Das ancas à cabeça
das garças à sem graça
de motos à maremotos
de revoluções à evoluções
do ninguém ao alguém

do silêncio ao caos

das antas aos ignorantes
das graves às piores
das greves à violência
do ensino ao descaso
do nicho ao misto

do índio ao revendo
do plebeu ao marechal

do caos à falta de silêncio para se expressar!

do cala-te boca ao cale essa boca
do cálice ao cale-se
do tapa à cara
do cara ao acará
do todo mundo à ninguém
do ninguém ao nada

da vizinha à fofoca
do visual à foca
da vaca ao cavalo
do meu para o seu prato

da falta de se expressar à falta de vontade de mudar

as vozes não se calam
as de fora gritam mais que as dentro da minha cabeça
as vozes não se calam
e as dentro da sala gritam como em ambientes abertos

dói a falta de não saber parar de ouvir
de não ter escolha à fazer as escolhas erradas
de poder escolher à ter que aturar
de se achar à se perder

do silêncio ao caos.

alguma coisa aconteceu

Alguma coisa deixou de acontecer enquanto reinava o sarcasmo mascarando o medinho de revelar a verdade, escondendo as coisas. As piadinhas pederastas e de gosto ofensivamente duvidoso. As brincadeirinhas que funcionam entre amigos, mas que entre estranhos se tornam vazias, vagas e de péssimo gosto.

Um mar de lama que cansa, que abre um buraco onde todos caem sorrindo sem graça.

A vida até parece uma festa, mas não é diversão para todos.

O escapismo declarado todo dia, nas caras e atitudes, no negar-se, no negar o próximo, de rebaixar as próprias escolhas e olhar esnobe e desinteressado ao que não convém.

Medo ou insegurança?

Sarcasmo barato que vira atitude que conduz a vida e se torna maior que as verdades.

Aconteceu que ficou de lado aquilo de bom que se pode ser.

roubaram! paga-pega!

Roubaram meus problemas
aquilo que queria esquecer ou jogar por baixo do tapete
roubaram!

levaram minha carteira, o dinheiro e as contas por pagar
roubaram!

levaram o plástico, as notas, as dívidas e comprovantes
roubaram!
acho que até pagaram antes do vencimento, e esqueceram de me avisar
pagaram com meus próprios problemas-dinheiro
mas roubaram!

levaram o mal estar, as dores, até as doenças incuráveis
roubaram!

quem poupa tem
quem muito tem, talvez precise ser roubado
que rouba tem
quem muito tem, talvez precise perder

sumiram com a opressão, a repressão, a angústia e a indigestão
e até a corrupção!
levaram tudo de pior que poderia acontecer
levaram consigo, e de certo que não verei nunca mais
fui condenado a ter meus problemas bem longe de mim
e mais certeza ainda de não conseguir colocar outros no lugar

e agora?
qual é que é o meu problema?

vinte centavos…

… é o que pareço valer, em um contexto que não parece prestar, sem perspectivas, profuso em vazio.

Livre para aceitar ordens absurdas e ouvir barbaridades de estranhos com suas ilusões de poder. Crianças velhas brincando de fantoches, mas o mais radical que sabem fazer é apertar botões ou assinar papéis de dispensa.

Desfilando suas roupas moderninhas em corpos e mentes vazias, ou seus gadgets, que não falam nada que faça sentido, que não se importam e não se envolvem. Pessoas imateriais. Materiais que moldam nossos hábitos.

Salários que não pagam caráter. Caráter tão baixo que nenhum salário há de passar perto de salvá-los.

Ah, vinte centavos! Tão melhores que tudo isso. Daria um mundo por vinte centavos, e vinte centavos de volta para salvar o mundo.

Parece que tudo que sou e faço soa vulgar, ofensivo, errado, fora do lugar. Reclamar de mais, desabafar de mais, socando facas, caminhando no limite do abismo, brincando com o inimigo, cutucando o perigo. Talvez me pareça ser inconsequentemente correto agir fora do padrão. Talvez incoerente seja continuar essa palhaçada!

E eles dizem sempre algo sobre “pensar fora da caixa”, me parece mais que se trata de pensar fora da realidade, pensar que pensam, só pelo fato ou pela diversão em si, e só isso, mais nada, só para mover-se diferente. Me soa tão mais do mesmo, tão clichê, tão babaca. Os ditos populares antigos eram bem mais sábios, criativos e motivadores, hoje os contemporâneos são datadamente descartáveis, como tecnologia e sua obsolescência programada.

Vinte centavos, vinte e tantos anos, beirando os trinta. E tomara que os próximos sejam mais ricos e verdadeiros que braços biônicos e criogenia humana. Pessoas sem sal, cérebros sem corpos, corpos vulgarizados. Pós-morte de bilhões de dólares, vidas que se perdem num estupro por migalhas e centavos manchados.

É isso mesmo que queremos? Eu não!

queria não querer

Queria não querer ter que querer aquilo que me parece mais feliz do que aquilo que tenho…

Chegar a uma certa idade e poder dançar flutuando em lembranças de um passado bem vivido, sem me preocupar tanto com o futuro, aproveitando o momento.

Sair das grandes roubadas e cair de peito aberto na piscina da felicidade.

Parar de viver atrás das grades, em salas sem janelas, com ar artificial.

Deixar para lá as pessoas que não valem a pena, as aparências, mentiras e os problemas que não podem ser resolvidos.

Pedalar no tapete vermelho, sentindo a música feita com ventinho no rosto.

Salário ao final do mês sem peso na consciência. Não ter que competir com tubarões, não ter que me preocupar se eles acham que são meus amigos, pois não são. Menos dinheiro e mais valor.

Amor sem dor. Dia sem calor, a menos que seja de pessoas, daquelas que fazem a vida pegar fogo.

Esporte sem sacrifício, só entrega, muita garra e pura diversão e saúde.

Animais sem coleiras, como amigos, afago sincero, de ambas as partes.

Pessoas sem barreiras, preconceitos, com mais amor e mais entrega, mais humanas.

Menos calorias e conservantes, e mais sabor. Menos fast, mais good. Menos hard, mais fruit.

Menos promessas e menos queixas, mais ação.

Queria não ter que querer, só por desejar. Mas simplesmente aproveitar a harmonia com a sabedoria dos que convivem bem com aquilo de mais puro que possuem, e isso por si só já basta, e é tudo de que realmente precisa.