poeta tolo

Hoje acordei morto e destruído
me transformei em raio, rápido como trovão
me benzi na água gelada

hoje fui lixo, virei água, farelo e resto

hoje fui herói e vencedor

hoje senti a tristeza me abater
a alegria me animar
a tristeza me ensinar criatividade
e a alegria me fazer repousar

hoje não passo de um poeta tolo
um sonhador de sonho solitário
nem lágrima consegui ser.

Não tenho medo de dizer o que penso.
Tenho medo de só dizer, sem prensar. Tenho medo de não pensar.
Dizendo ou não. (RM)

Se a vida fosse só o que nos servimos à primeira vista, nunca descobriríamos o que é seguir em frente. (RM)

Poesia ao despertar do dia é ainda sonho
Poesia ao deitar à noite é ainda vida. (RM)

Tudo que escrevo é questionável
pois me sobra ignorância e falta beleza poética.
Antes as dúvidas que me despertam olhares curiosos e descobertas
que certezas que se limitam às verdades. (RM)

acorde para a vida

Café é uma convenção social…
sozinho só serve para queimar a língua ou pintar de preto os órgãos internos
acompanhado nos faz as pessoas mais legais que existem
desculpa para puxar papo
que cura sono é dormir
que cura tédio é se divertir
que faz o sono bom é deitar com a cabeça leve
e acordar sonhando
que faz a diversão boa é ir de peito aberto
e rir a toa, mesmo sozinho
beba da fonte da vida
com suas texturas e cores
pinte o coração de alegria
acorde para a vida.

às vezes

Às vezes dirijo tão rápido
que a vida ficou lá trás
só percebo tarde de mais
vejo que estava errado
não foi agora

às vezes erro tão rápido
que até reflexo foge de mim
às vezes fujo de mim
me sentindo estúpido
aconteceu de novo

às vezes percebo que não sei dirigir
que também sei fazer a coisa certa
não sou mais eu a apontar a seta
então porque parou de rir?
ofereço a outra face

então percebo, por vezes, que é vez de parar
parar de brincar

não foi agora
eu sei
aconteceu de novo
eu sei
ofereço a outra face
só eu sei

então percebo, por vezes, que é vez de parar
parar de brincar
brincar de parar

vinte centavos…

… é o que pareço valer, em um contexto que não parece prestar, sem perspectivas, profuso em vazio.

Livre para aceitar ordens absurdas e ouvir barbaridades de estranhos com suas ilusões de poder. Crianças velhas brincando de fantoches, mas o mais radical que sabem fazer é apertar botões ou assinar papéis de dispensa.

Desfilando suas roupas moderninhas em corpos e mentes vazias, ou seus gadgets, que não falam nada que faça sentido, que não se importam e não se envolvem. Pessoas imateriais. Materiais que moldam nossos hábitos.

Salários que não pagam caráter. Caráter tão baixo que nenhum salário há de passar perto de salvá-los.

Ah, vinte centavos! Tão melhores que tudo isso. Daria um mundo por vinte centavos, e vinte centavos de volta para salvar o mundo.

Parece que tudo que sou e faço soa vulgar, ofensivo, errado, fora do lugar. Reclamar de mais, desabafar de mais, socando facas, caminhando no limite do abismo, brincando com o inimigo, cutucando o perigo. Talvez me pareça ser inconsequentemente correto agir fora do padrão. Talvez incoerente seja continuar essa palhaçada!

E eles dizem sempre algo sobre “pensar fora da caixa”, me parece mais que se trata de pensar fora da realidade, pensar que pensam, só pelo fato ou pela diversão em si, e só isso, mais nada, só para mover-se diferente. Me soa tão mais do mesmo, tão clichê, tão babaca. Os ditos populares antigos eram bem mais sábios, criativos e motivadores, hoje os contemporâneos são datadamente descartáveis, como tecnologia e sua obsolescência programada.

Vinte centavos, vinte e tantos anos, beirando os trinta. E tomara que os próximos sejam mais ricos e verdadeiros que braços biônicos e criogenia humana. Pessoas sem sal, cérebros sem corpos, corpos vulgarizados. Pós-morte de bilhões de dólares, vidas que se perdem num estupro por migalhas e centavos manchados.

É isso mesmo que queremos? Eu não!

pessoas ocupadas demais

As pessoas andam ocupadas demais. Tanto que ocupam-se até em buscar o que fazer quando se pegam na rara e inusitada situação de parecer não ter nada em que que atuar.

As pessoas andam ocupadas demais. De coisas inúteis, banais, excesso de compromissos e reuniões, excesso de peso nas costas e cobranças. Excesso e contas e compras fúteis, excesso de escapismos baratos tentando preencher o tempo que não se tem, pela simples loucura de não saber olhar para dentro e buscar um pouco mais de centramento. Excesso de dores e remédios, excesso de doenças e curas que não vão chegam.

As pessoas andam ocupadas demais. De tantos contatos na agenda, poucos são aqueles que te ligam para falar sobre amizade, amor e carinho. E você liga? Abraços afetivos são esquecidos, e simples apertos de mão parecem bastar, mas são só formalidades.

Nós andamos ocupados de mais. Ocupados em tentar fazer o melhor, em buscar no hoje e agora, fazer a base para um futuro mais próspero. Teremos então tempo, disposição ou disponibilidade de prosperar em felicidade nesse futuro planejado? Corremos por ter pressa, corremos para fugir dela, corremos de um lado ao outro como baratas tontas apagando incêndios, pendências e bodegas mais, e acabam por escorrer entre os dedos resquícios dessas pastilhas efervescentes de coisas que acumulamos e outras tantas que não nos dizem respeito.

Eu ando ocupado demais. Em vez de cuidar da minha saúde e paz de espírito, eu tenho um emprego. Por correr demais estou parcialmente interditado, sem poder fazer parte do que gosto. Troco noites e madrugadas para poder brincar de artista, mas ao amanhecer o profissional precisa acordar. E o profissional chega no trabalho e se sente um amador, sem aprender nada novo a cada dia. Não vejo meus amigos mais sinceros há bastante tempo, e quanto mais tempo passa às vezes acho que me tornei um estranho. Acumulando coisas sem ter onde colocá-las, fazendo planos sem saber quando e como cumprí-los. Desperdiçando tempo com pessoas e projetos que não me dizem mais respeito.

Eu ando ocupado demais. E me sentindo invisível diante de tantas outras pessoas que vão e vem.

amor a gente deixa para os bons

Amor eu deixo para os bons
para os outros deixo minha cara de desprezo
que é o espelho que devolvo à sua ignorância

a sua falta de respeito me ofende
acha que me enfraquece?
ela te deixa vazio
te mostra o monstro que é
subproduto produzido em série, melhorado/piorado por um sistema corrupto

amor faço com minhas próprias mãos
melhor que te tocar impuro
e me sujar na tua falta de caráter

meu ódio é combustível
destilado dessa sua cara lavada
subornando e subjugando a pureza humana
uso esse óleo pra te lamber e fazer arder em fogo
e te apagar de uma vez por todas

vê se cresce
pois é inútil continuar sua brincadeirinha

acha que vai conseguir algo de bom?
não vai conseguir nem amostra grátis

amor verdadeiro talvez não saiba o que é
respeito, harmonia, caridade, humanidade
já ouviu falar?

então o que canalizo é para quem sabe dar valor
amor, carinho, afeto, abraço, sorriso
para quem realmente vale.

indiretas

Indie… indiretas
soltas sutilezas
olhar de canto de olho
basta leve balançar de cabeça

independente, totalmente alheio
mas nunca alienado e nunca indiferente

alfinetadas às vezes bem sarcásticas
agulha boa é com  duas pontas
me dói repreender
me dói muito mais fechar os olhos
diante do que pode acontecer.