porto seguro

Quando só me restarem dúvidas, farei delas o maior impulso na busca de afirmar o que sou e o que sinto. Se as certezas estiverem abaladas, ao menos em mim terei algum porto seguro, a quem recorrer, consultar e reler aquela sinceridade de criança.

Posso oferecer o melhor que tenho, o melhor que sou, meus sentimentos mais puros, meu olhar e timidez, meu carinho e companheirismo. Mesmo as mãos trêmulas de medo pelo que vier a encarar, podem ao se fechar, agarrando uma a outra, ganhar força e coragem. Minhas mãos e palavras não pagam contas, não mudam opiniões, mas minha presença pode ajudar a ser um escudo contra a sociedade e as babaquices do mundo.

Desejo te segurar pela mão, olhar nos olhos e dizer “vamos juntos”.

Não tenho medo das opiniões alheias, pois contratempos e ignorância, intolerância sempre existirão. Meu medo mora em não poder viver o que mais quero.

Se o mundo ruir, mesmo assim eu ficarei. Se todos forem contra, mesmo assim acreditarei. Chegando meu momento e vou brilhar, seguindo meu rumo, refletindo brilho das energias boas à minha volta.

Vamos brilhar juntos, nós que acreditamos na liberdade. “Vamos viver tudo que há pra viver, nos permitir”, acreditando que qualquer dificuldade no caminho é pequena diante das conquistas que tivemos e ainda poderemos alcançar.

eu erro

Cansado dos xingamentos, do calor das pessoas e do calor da cidade.
As vidas lotadas de falta de sentido e as dúvidas.
A vida é um ônibus? De passagem? Ou dê passagem?
Cansado de ter que escolher e não saber por onde começar.
Não entendo porque tanto rivotril ou dorflex, enquanto as pessoas nem sequer bebem água direito, ou de boa qualidade.
Escadas para subir, barrancos por cair.
Andadores artificiais, preguiça até de chamar o elevador.
As obras que nunca acabam, e as necessidades básicas nunca sanadas.
Furar fila, entras no ônibus sem pagar, pular a roleta ou entrar pela janela.
Quando lembrar de dar bom dia já é quase hora de ir embora.
Cansado dos tiros, da falsa segurança, cansado do medo.
Pessoas cheias de razão, cheias de si.
Virar a cara para o próximo, não ter a mão generosa, e ainda ser pedinte mal agradecido.
Cartazes nas ruas que não dizem nada.
Pessoas que não conversam com livros.
Digitalização da banalidade.
Eu erro, tu erras, ele erra, nós erramos, vós errais, eles erram.
Eu era, eles eram…

o Rio de Janeiro continua

O Largo dos Leões não tem leão algum
em Jacarepaguá, o jacaré no seco anda…
a Praça Paris não tem nada do charme europeu
o Largo da Segunda-feira está lá todos os dias, mesmo nas folgas
o Engenho Novo não é engenho, e tão velho quanto o velho
o antigo Jardim Zoológico nunca mais foi um zoo
o Pão de Açúcar não é doce, mas é um sonho sua paisagem
na Vista Chinesa não precisa apertar os olhinhos, mantenha-os bem abertos
o Jardim é Botânico
e no Parque Lage ninguém levanta laje ou puxadinho

Vai rolar baile funk na passarela do samba
o carnaval é arte popular, não é mais só a festa da carne, mas farra da bebida
e a festa da avenida é na TV pra gringo ver
o barracão está mais para elite
a Princesinha do Mar está imprópria
já não é mais aquela garotinha pura e inocente
nem as meninas no calçadão…

O Maraca não é nosso
temos a maior torcida, mas os estádios vazios
todo campo de várzea tem mais craques e crack
e “todo camburão tem um pouco de navio negreiro”
“nossa terra tem palmeiras”, tiros de traçante e beira mar
“as aves que aqui gorjeiam”, as pipas empinadas, os meninos-aviõezinhos
o Morro Dois Irmãos, o Túnel Dois Irmãos, o Mirante Dois Irmãos
mas nos falta muita camaradagem

A moça de penduricalhos e salada de fruta na cabeça não é nossa
mas viva o “Chica Chica Boom Chic”

O Rio de Janeiro continua, imagina, mesmo depois da Copa.

http://migre.me/lI7cE

no meio do caminho tinha uma praça

A Praça da Bandeira não tem mais praça nem bandeira
não tem água empoçada, não tem ordem, não tem nada
o rock fica confinado num beco sujo, marginal e prostituto
de um lado galinhas, de outro lado galeto
praça onde não se brincava, onde a fome dormia e a violência passeava
os dedos ficam, as jóias vão
as notas vão e a carteira no chão
praça apenas de passagem
olha para baixo e obras
olha para cima, sem bandeira: promessas e sonhos
e hoje um dia nublado.

basta

Basta sermos loucos
e as contas somem
os problemas evaporam
as consequências se envergonham de existir

basta sermos sonhadores
e as contas são pedrinhas de brincar
os problemas são pegadinhas de professor
e as consequências são as mais coloridas

basta sermos malandros
e as contas são dos outros
os problemas são só seus olhos
e a consequência é nos darmos bem (sempre)

basta sermos nós mesmos
e não dar conta de mais ao que não importa
resolver problemas um a um
e por consequência vivermos em harmonia

ou tentar.

jogo

Dominamos o fogo
perdemos controle
aprendemos a controlar o fogo
perdemos controle

dominamos outras espécies
fomos surpreendidos por elas
impomos mais força e dominamos
perdemos controle

dominamos a terra
consumimos e exploramos
criamos recursos artificiais
perdemos controle

o coração não domina a mente
a mente não domina o coração
agimos sem razão
perdemos controle.

pensando…

Nem nossa própria mente nós podemos dominar, mas acima disso: devemos saber e buscar harmonizar.

. . .

É melhor sentir medo, mas se sentir vivo, do que ter coragem e ficar parado. O medo pode incomodar e impulsionar, enquanto que a coragem pode te fazer acomodar.

tanto nada

Tanta novidade é um tédio
uma loucura entorpecida em burrice e consumismo
uma burrice assumida
um choro arrependido

tanta futilidade que me cerca
absorvo, vivo e sobrevivo
me afogo completamente consciente
um choro arrependido

a carteira no lugar do coração
um cheio que nunca preenche o vazio
a saliva só por ir ao chão
as mãos secas no toque

o pulso ainda pulsa
mas de nada adianta ritmo ou cadência
se é a falência de sentido que sobra

tanta tristeza
e tantos sorrisos falsos
tanto sarcasmo e palhaçadas bestas
e tantas falsas amizades

o murro ainda soca
mas de nada adiantam facas
pois dividem em vez de multiplicar.