mais gavetas do que mentes abertas

Há um certo ar de ironia na vida, quando em meios e tempos contemporâneos, de acesso a tudo, liberdade sobre tudo, ainda somos contraídos em herméticos pensamentos. Em que há sempre mentes vazias, mentes fechadas, mentes sofridas, pessoas na esquiva, energia perdida, frustrações, esforços em vão. Mais fácil fecharem as portas, as janelas, dizer um não, aceitar um não, do que ouvir boas opiniões. Se “de boas intenções o inferno está cheio”, então de boas ideias as gavetas também estão. 

De teias de aranhas temos que tecer uma trama de ramificadas possibilidades. Não uma armadilha, mas uma bela, positiva e sutil fuga ao infinito. Abrir as gavetas e botar as ideias em prática. Abrir a mente e botar a vida em prática. 

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pensando…

Nem nossa própria mente nós podemos dominar, mas acima disso: devemos saber e buscar harmonizar.

. . .

É melhor sentir medo, mas se sentir vivo, do que ter coragem e ficar parado. O medo pode incomodar e impulsionar, enquanto que a coragem pode te fazer acomodar.

acorde para a vida

Café é uma convenção social…
sozinho só serve para queimar a língua ou pintar de preto os órgãos internos
acompanhado nos faz as pessoas mais legais que existem
desculpa para puxar papo
que cura sono é dormir
que cura tédio é se divertir
que faz o sono bom é deitar com a cabeça leve
e acordar sonhando
que faz a diversão boa é ir de peito aberto
e rir a toa, mesmo sozinho
beba da fonte da vida
com suas texturas e cores
pinte o coração de alegria
acorde para a vida.

as vozes não se calam

Das ancas à cabeça
das garças à sem graça
de motos à maremotos
de revoluções à evoluções
do ninguém ao alguém

do silêncio ao caos

das antas aos ignorantes
das graves às piores
das greves à violência
do ensino ao descaso
do nicho ao misto

do índio ao revendo
do plebeu ao marechal

do caos à falta de silêncio para se expressar!

do cala-te boca ao cale essa boca
do cálice ao cale-se
do tapa à cara
do cara ao acará
do todo mundo à ninguém
do ninguém ao nada

da vizinha à fofoca
do visual à foca
da vaca ao cavalo
do meu para o seu prato

da falta de se expressar à falta de vontade de mudar

as vozes não se calam
as de fora gritam mais que as dentro da minha cabeça
as vozes não se calam
e as dentro da sala gritam como em ambientes abertos

dói a falta de não saber parar de ouvir
de não ter escolha à fazer as escolhas erradas
de poder escolher à ter que aturar
de se achar à se perder

do silêncio ao caos.

veste a cara com a palhaçada que a alegria merece

a gente inventa
e quanto descobre que não, tudo é sim
mesmo aquilo que não é

a gente inventa
se não der certo agora, a gente tenta

cada mentira contada vira verdade
cada verdade negada vira esquecimento

sair de casa é somente dar um pulo
e voltar é trazer o mundo descoberto
nas costas que sentem um peso leve
mas rico em emoções vividas
em corações partidos
em lágrimas
em pureza

a gente acha que não
perde as esperanças
mas sabe que olhar para trás pode sim ser uma possibilidade

a gente gira gira e não sai do lugar
mas o mundo gira e dá cambalhotas que nós nem percebemos

hoje em dia tudo é possível
como sempre foi
mas às vezes parece que negamos isso

hoje em dia impossível é aquilo que a gente não quer
não quer acreditar
não quer fazer
não quer negar e nem adimitir

possível é impossibilitar a possibilidade
é negar o que parece claro
é negar a negação e virar o jogo

a gente inventa
a gente representa
e veste a cara com a palhaçada que a alegria merece

um livro é somente um livro se você não abri-lo
um tijolo de papel para paredes frágeis
é um manual sem explicação clara
é lição que alguém traduziu em palavras
que deverão ser novamente interpretadas

a gente inventa histórias
as histórias nos inventam
e nada fica por isso mesmo

vinte centavos…

… é o que pareço valer, em um contexto que não parece prestar, sem perspectivas, profuso em vazio.

Livre para aceitar ordens absurdas e ouvir barbaridades de estranhos com suas ilusões de poder. Crianças velhas brincando de fantoches, mas o mais radical que sabem fazer é apertar botões ou assinar papéis de dispensa.

Desfilando suas roupas moderninhas em corpos e mentes vazias, ou seus gadgets, que não falam nada que faça sentido, que não se importam e não se envolvem. Pessoas imateriais. Materiais que moldam nossos hábitos.

Salários que não pagam caráter. Caráter tão baixo que nenhum salário há de passar perto de salvá-los.

Ah, vinte centavos! Tão melhores que tudo isso. Daria um mundo por vinte centavos, e vinte centavos de volta para salvar o mundo.

Parece que tudo que sou e faço soa vulgar, ofensivo, errado, fora do lugar. Reclamar de mais, desabafar de mais, socando facas, caminhando no limite do abismo, brincando com o inimigo, cutucando o perigo. Talvez me pareça ser inconsequentemente correto agir fora do padrão. Talvez incoerente seja continuar essa palhaçada!

E eles dizem sempre algo sobre “pensar fora da caixa”, me parece mais que se trata de pensar fora da realidade, pensar que pensam, só pelo fato ou pela diversão em si, e só isso, mais nada, só para mover-se diferente. Me soa tão mais do mesmo, tão clichê, tão babaca. Os ditos populares antigos eram bem mais sábios, criativos e motivadores, hoje os contemporâneos são datadamente descartáveis, como tecnologia e sua obsolescência programada.

Vinte centavos, vinte e tantos anos, beirando os trinta. E tomara que os próximos sejam mais ricos e verdadeiros que braços biônicos e criogenia humana. Pessoas sem sal, cérebros sem corpos, corpos vulgarizados. Pós-morte de bilhões de dólares, vidas que se perdem num estupro por migalhas e centavos manchados.

É isso mesmo que queremos? Eu não!

pessoas ocupadas demais

As pessoas andam ocupadas demais. Tanto que ocupam-se até em buscar o que fazer quando se pegam na rara e inusitada situação de parecer não ter nada em que que atuar.

As pessoas andam ocupadas demais. De coisas inúteis, banais, excesso de compromissos e reuniões, excesso de peso nas costas e cobranças. Excesso e contas e compras fúteis, excesso de escapismos baratos tentando preencher o tempo que não se tem, pela simples loucura de não saber olhar para dentro e buscar um pouco mais de centramento. Excesso de dores e remédios, excesso de doenças e curas que não vão chegam.

As pessoas andam ocupadas demais. De tantos contatos na agenda, poucos são aqueles que te ligam para falar sobre amizade, amor e carinho. E você liga? Abraços afetivos são esquecidos, e simples apertos de mão parecem bastar, mas são só formalidades.

Nós andamos ocupados de mais. Ocupados em tentar fazer o melhor, em buscar no hoje e agora, fazer a base para um futuro mais próspero. Teremos então tempo, disposição ou disponibilidade de prosperar em felicidade nesse futuro planejado? Corremos por ter pressa, corremos para fugir dela, corremos de um lado ao outro como baratas tontas apagando incêndios, pendências e bodegas mais, e acabam por escorrer entre os dedos resquícios dessas pastilhas efervescentes de coisas que acumulamos e outras tantas que não nos dizem respeito.

Eu ando ocupado demais. Em vez de cuidar da minha saúde e paz de espírito, eu tenho um emprego. Por correr demais estou parcialmente interditado, sem poder fazer parte do que gosto. Troco noites e madrugadas para poder brincar de artista, mas ao amanhecer o profissional precisa acordar. E o profissional chega no trabalho e se sente um amador, sem aprender nada novo a cada dia. Não vejo meus amigos mais sinceros há bastante tempo, e quanto mais tempo passa às vezes acho que me tornei um estranho. Acumulando coisas sem ter onde colocá-las, fazendo planos sem saber quando e como cumprí-los. Desperdiçando tempo com pessoas e projetos que não me dizem mais respeito.

Eu ando ocupado demais. E me sentindo invisível diante de tantas outras pessoas que vão e vem.

amor a gente deixa para os bons

Amor eu deixo para os bons
para os outros deixo minha cara de desprezo
que é o espelho que devolvo à sua ignorância

a sua falta de respeito me ofende
acha que me enfraquece?
ela te deixa vazio
te mostra o monstro que é
subproduto produzido em série, melhorado/piorado por um sistema corrupto

amor faço com minhas próprias mãos
melhor que te tocar impuro
e me sujar na tua falta de caráter

meu ódio é combustível
destilado dessa sua cara lavada
subornando e subjugando a pureza humana
uso esse óleo pra te lamber e fazer arder em fogo
e te apagar de uma vez por todas

vê se cresce
pois é inútil continuar sua brincadeirinha

acha que vai conseguir algo de bom?
não vai conseguir nem amostra grátis

amor verdadeiro talvez não saiba o que é
respeito, harmonia, caridade, humanidade
já ouviu falar?

então o que canalizo é para quem sabe dar valor
amor, carinho, afeto, abraço, sorriso
para quem realmente vale.

acordar

Acordam os olhos fechados ao mundo
o mundo que se fecha em absurdos
mentiras, trapaças

por cima dos panos todos se dizem virgem
mas por baixo alguns se mostram sujos
na sua cara eles prometem muito
mas ao longo dos anos fazem muito: mas muito pouco

declare guerra
se a passagem do ônibus aumentou
declare guerra
se o seu time do coração desabou
declare guerra
até mesmo se o seu time ganhou
declare guerra
se o seu patrão não te pagou
declare guerra
se o hospital diante de você as portas fechou
declare guerra
contra a guerra que muitos exterminou

acorde então suas pernas
e as ponha a caminhar
acorde seu coração
pois há algo mais a amar além da paixão nacional
acorde sua determinação
e seja seu próprio patrão
acorde seu corpo e mente
e faça de você um tempo de equilíbrio, centramento e saúde

que se abram as portas e janelas da alma
que as possibilidades sejam férteis
que a vontade de fazer faça realmente a diferença
que as ações sejam suficientes para gerar resultados

acorde o corpo
meta as caras e o pé na porta se necessário
antes que metam as pás na terra abrindo covas
e a existência se perca viva em areia movediça.