“um trem pras estrelas”


Numa noite nublada, saindo do buraco do metrô avisto a escuridão a cair no verão do Rio. Como passa rápida a vida! As horas contadas quando as luzes acendem e as lojas fecham, e as ruas quase nunca desertas que apenas fingem dormir. Toca Cazuza no rádio e me deparo com betume na grande tela do topo do mundo. Precisaria um trem bem forte para romper barreiras do peito ao céu buscando alcançar estrelas. Visível no centro de tudo reina uma meia lua dourada e linda. Não importam seus nomes, mais que isso me encanta sua beleza, os seus mitos de fases que são um mistério. Dois sorrisos, ou vários, e ganho meu dia. A vida é um roteiro ainda não escrito, que toma forma nas linhas tortas. Somos os astros, somos o tempo, somos enigmas, somos estrelas. 

Rio de Janeiro

Adoro o shortinho das moças
a bossa das ruas
o perfume das possibilidades
o cheiro dos livros, as capas
os causos e piadas
não gosto do sarcasmo
mas admiro a malandragem
a irreverência que a gente boa tem

do Baixo Méier ao Baixo Gávea
todo mundo meio alto

adoro o caos e as misturas
o paladar das comidas
até quando o trânsito pára para observar a cidade

o tempero que a mão boa tem
as várias cores de pele
adoro o Jóquei Clube iluminado

as corridas na Lagoa
a volta pra casa em noite de chuva

o Rio é uma cidade em muitas
cada um tem a sua
adoro morar em várias cidades sem ter que sair de uma.

eu erro

Cansado dos xingamentos, do calor das pessoas e do calor da cidade.
As vidas lotadas de falta de sentido e as dúvidas.
A vida é um ônibus? De passagem? Ou dê passagem?
Cansado de ter que escolher e não saber por onde começar.
Não entendo porque tanto rivotril ou dorflex, enquanto as pessoas nem sequer bebem água direito, ou de boa qualidade.
Escadas para subir, barrancos por cair.
Andadores artificiais, preguiça até de chamar o elevador.
As obras que nunca acabam, e as necessidades básicas nunca sanadas.
Furar fila, entras no ônibus sem pagar, pular a roleta ou entrar pela janela.
Quando lembrar de dar bom dia já é quase hora de ir embora.
Cansado dos tiros, da falsa segurança, cansado do medo.
Pessoas cheias de razão, cheias de si.
Virar a cara para o próximo, não ter a mão generosa, e ainda ser pedinte mal agradecido.
Cartazes nas ruas que não dizem nada.
Pessoas que não conversam com livros.
Digitalização da banalidade.
Eu erro, tu erras, ele erra, nós erramos, vós errais, eles erram.
Eu era, eles eram…

o Rio de Janeiro continua

O Largo dos Leões não tem leão algum
em Jacarepaguá, o jacaré no seco anda…
a Praça Paris não tem nada do charme europeu
o Largo da Segunda-feira está lá todos os dias, mesmo nas folgas
o Engenho Novo não é engenho, e tão velho quanto o velho
o antigo Jardim Zoológico nunca mais foi um zoo
o Pão de Açúcar não é doce, mas é um sonho sua paisagem
na Vista Chinesa não precisa apertar os olhinhos, mantenha-os bem abertos
o Jardim é Botânico
e no Parque Lage ninguém levanta laje ou puxadinho

Vai rolar baile funk na passarela do samba
o carnaval é arte popular, não é mais só a festa da carne, mas farra da bebida
e a festa da avenida é na TV pra gringo ver
o barracão está mais para elite
a Princesinha do Mar está imprópria
já não é mais aquela garotinha pura e inocente
nem as meninas no calçadão…

O Maraca não é nosso
temos a maior torcida, mas os estádios vazios
todo campo de várzea tem mais craques e crack
e “todo camburão tem um pouco de navio negreiro”
“nossa terra tem palmeiras”, tiros de traçante e beira mar
“as aves que aqui gorjeiam”, as pipas empinadas, os meninos-aviõezinhos
o Morro Dois Irmãos, o Túnel Dois Irmãos, o Mirante Dois Irmãos
mas nos falta muita camaradagem

A moça de penduricalhos e salada de fruta na cabeça não é nossa
mas viva o “Chica Chica Boom Chic”

O Rio de Janeiro continua, imagina, mesmo depois da Copa.

http://migre.me/lI7cE

no meio do caminho tinha uma praça

A Praça da Bandeira não tem mais praça nem bandeira
não tem água empoçada, não tem ordem, não tem nada
o rock fica confinado num beco sujo, marginal e prostituto
de um lado galinhas, de outro lado galeto
praça onde não se brincava, onde a fome dormia e a violência passeava
os dedos ficam, as jóias vão
as notas vão e a carteira no chão
praça apenas de passagem
olha para baixo e obras
olha para cima, sem bandeira: promessas e sonhos
e hoje um dia nublado.

feira da Praça XV

Passo por ali aos sábados de manhã
velhos, antigos, ultrapassados, desnecessário a desejados
sujos ou brilhantementes novos objetos antigos
a feira
de frente paras barcas
debaixo do viaduto
de cara para o antigo do Rio

me faz sorrir pelo lúdico
pelos velhos hábitos e formas de fazer as coisas
das histórias que não vivi, nem presenciei
vontade de viver vários tempos e realidades
tantos lugares e possibilidades

tantas pessoas e seus utensílios
suas traquitanas nas bancadas de madeira rota
quinquilarias pelo chão e lonas
suas vidas e as vidas de outros expostas
oferecendo de tudo, comprando e vendendo
novos e velhos a preços de banana
novos e velhos a preços de grife
gato por lebre
pó e sujeira a peso de ouro

alegria não tem preço
passeio que encanta e revela tantos segredos e possibilidades.

cidade-vulcão

As artérias da cidade acesas
glóbulos, corpos, corpúsculos, minúsculos
fluxo de luzes e vida
vida de fluxos intensos
como lava, cor de fogo
fluido movimento urbano
se embrenhando emaranhado
se revelando acordado
caminhos sinuosos
curvas suaves, curvas fechadas
cortando serras, vales, planos
escavando túneis por dentro de morros

os algodões de nuvens em céu azul
logo dão lugar a noite que vem chegando
a Lua tão pertinho
o azul ficando escuro

a cidade tão linda acesa
imenso organismo vivo
o maraca, o trabalho, a serra
passei batido por minha casa sem conseguir vê-la
na noite que cai fica mais difícil

a festa dos barcos na baía
petroleiros, rebocadores e balsas
até mesmo plataformas de rico ouro negro
mais pareciam moradores do imenso azul
a saldar imitando e refletindo o brilho das estrelas
parecia reveillon, festa das luzes

o frio na barriga
da curva das asas cruzando o ar sem estrada
faz que vira, faz que engana
faz que encanta de aventura
faz que quase se derrama

eu com inocência infantil
parecendo mais com o garoto a minha frente
curioso e desconcertante  a perguntar ao pai
coisas que só criança pode perguntar e apreciar
e eu na janelinha a espiar e a sorrir
feliz por ver a tardinha que vai
o barquinho que vem
e o samba no avião nem desandou do compasso
nem caiu nas águas de agosto
caiu foi na graça de um coração um pouco poeta hoje.

árvores


Gosto das cores das árvores, das formas das árvores, do emaranhados de galhos, folhas, dos seus volumes. Gosto da beleza sutil, da beleza profusa, de como elas de misturam, na verdade quase se abraçam.

Acho tão bela a maneira da natureza de pesquisas cores, tons, e tantas variações inimagináveis. Surpreende-me como é rica, como fascina, encanta, conquista, como um convite ao arco-íris de possibilidades, aconchegante e leve. Adoro olhar os morros, montanhas e beiras de estradas e serras com tão rica flora e fauna. Cada curva de estrada dispensa por completo a palavra monotonia, pois cada centímetro revela novas formas. Me encanta ver tanto verde: verde bandeira, verde folha, oliva, amarelado, azulado, musgo, água…

Rebanhos lá no alto dos morros, tão íngremes que nem faço ideia de como foram parar lá. Cachorros andando livremente, cavalos, riachos, grama, flores, frutas nas beiras da estrada. Cercas frágeis, limites demarcados só por constar, parece que espécie humana não passa já há algum tempo por ali.

Que boa sensação, vento leve e fresco no rosto, cheiro natural, até os raios encontram brechas entre nuvens para apreciar a beleza aqui de baixo.

conectado

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Rede aberta, vamos lá. Nem precisa contar, só clicar e esperar um pouquinho, imagina quando não precisar nem mais clicar, só pensar. Frases sem pausas, papos sem interrupção, de um lado para o outro, em todo lugar, conectados. Livres e vigiados, observando e observados. O erro na pressa, correria indireta, paz da maneira que nos resta.

Cada um no seu quadrado colorido, trancados em seu fones. Isolados somos na imensidão da rede aberta que formamos juntos. A tecnologia nos afasta na mesma proporção que nos aproxima.

Que bom que ainda há quem saque livros e jornais de suas bolsas ou mochilas. E lá embaixo pessoas no objeto voador não identificado, devidamente catalogado.

todo santo dia

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Todo santo dia
e dia não santo também
tem dia que sim, dia não
não tem dia
ônibus lotado, multidão
lata de sardinha, lataria, loteria, lotação
sorte: entrar ou não entrar?
o relógio de ponto não espera
então vamos lá
senha-oração, ladainha diária cadastrada
passou, ufa! deu tempo
que assim seja
todo santo dia
mas tomara que um dia não mais seja.

~ ~ ~
Ouvindo: Cólera