mais gavetas do que mentes abertas

Há um certo ar de ironia na vida, quando em meios e tempos contemporâneos, de acesso a tudo, liberdade sobre tudo, ainda somos contraídos em herméticos pensamentos. Em que há sempre mentes vazias, mentes fechadas, mentes sofridas, pessoas na esquiva, energia perdida, frustrações, esforços em vão. Mais fácil fecharem as portas, as janelas, dizer um não, aceitar um não, do que ouvir boas opiniões. Se “de boas intenções o inferno está cheio”, então de boas ideias as gavetas também estão. 

De teias de aranhas temos que tecer uma trama de ramificadas possibilidades. Não uma armadilha, mas uma bela, positiva e sutil fuga ao infinito. Abrir as gavetas e botar as ideias em prática. Abrir a mente e botar a vida em prática. 

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para onde quer que eu vá


Se eu me perder, ainda assim farei da tristeza companhia. Se cair, ainda assim farei do nada uma oportunidade. Se me faltarem palavras, tentarei gestos. Se me faltarem palavras e gestos, ainda assim tentarei qualquer forma que tiver para demonstrar o que sou ou o que preciso, mesmo precisando de ajuda. 

Se me sobrar alegria, que tenha sabedoria em cultivá-la e generosidade em compartilhá-la. 

Se me faltar luz por onde andar, que as sombras sejam um conforto fresco. Se ao contrário me faltarem sombras, que seja o sol não o que queima, mas o que ilumina ou recarrega e ativa energias. 

Se me sobrarem dúvidas, que saiba conviver com elas e buscar as respostas cabíveia e justas. As que não tiverem respostas, que sejam passos pelo caminho, ou tempero. 

Se tiver mais respostas que dúvidas, que então tenha sabedoria em questionar a razão, e generosidade em compartilhar essas certezas. Aprender muito mais em poder ajudar. 

Para onde quer que eu vá, que haja caminho por fazer destinos. 

45


Mem cinco minutos guardados, eternizados em auge de mais puro sentimento foram argumentos fortes para sustentar a identitade líquida dos seres. Palavras doces, recaídas, esperanças, negações, mais esperanças vazias, conselhos e broncas, tentativas de abrir os olhos entre as lágrimas. Cinco segundos para decidir, quarenta e cinco para se arrepender, seis horas de reflexão e conselhos musicais abafados egoisticamente nos ouvidos. O que é (e o que nunca foi) amor nos dias de hoje? Como pessoas que escorrem pelos dedos, sentimentos negados, escolhas tomadas. O juiz também deixou o apito de lado e foi jogar, a vida segue correndo e ninguém quer perder. Tenho orgulho por ter tentado, sincero em mim, no meu ser. Nas lágrimas me fortaleço, pois lavo minha alma. 

e quando eu voltar


Eu vou lá, seguir em frente em busca, a caminho da felicidade. Me abraço, me consolo e conforto, me olho nos olhos e me toco o coração. Aproximo da razão, recheada de emoção, pois assim sou. Eu preciso andar. E de dentro para fora buscar forças, para alcançar. O que falta preencher no meu eu, só a mim mesmo cabe completar. Quem quiser, virá apenas a somar e compartilhar, e que venha de peito aberto também. Estou chegando…

me dê um gole de vida


Toda queda um sopro. Cada perda um encontro. No escuro uma luz. Em cada glória um recado. Perspectivas, expectativas, pontos de vista, desilusões e frustrações, momentos de profundo vazio ou de êxtase em alegrias e realizações. Sentimentos fervilhando na mente, ideias e planos em conexão no coração. Cada respirada mais profunda um novo gole de vida. 

pequenas coisas


Não vá assim me deixando pura lágrima, pois em mim apaga mais uma bela chama. Estive tão perto do fogo, tão perto do olho do furacão, senti a alma transbordar pelo corpo e quase sair dele pela boca. Eu não aguento mais. Estive tão perto do que havia perdido, perto de alcançar de novo, e escorreu pelos dedos. Não me cabe julgar nem cobrar os outros, pois me cabem tantas fraquezas, defeitos, erros, falhas, falta em mim muito que agarrar e defender com unhas e dentes. Para alcançar o que quero às vezes não basta só querer, só vontade, é preciso um pouco mais, vindo de dentro. Me resumo a pequenas coisas. 

incerteza viva*


Bicho solto, cão sem dono e sem coleira, no mundo, largado pelo caminho, de bairros à países, dono de nada e nem do próprio nariz. Sem rumo nem fala, sem chão e sem nada. Com tudo sem saber. Vivendo a cada dia com poucas lembranças do passado e na incerteza viva do futuro. Vale quanto pesa? Então vale pouco. E se for pelo peso no mundo nas costas? Então custa caro. Dois pesos e duas medidas, fluido como é frágil a vida que passa diante dos olhos no meio de uma estrada. 

*Incerteza Viva é tema da edição 32 da Bienal de São Paulo

medo do sentido (recados espirituais)


Eu perdi o meu medo, meu medo do medo. Eu passei a gostar do bem que a chuva me faz. Eu passei a viver momentos, ser visual e volúvel como a vontade. Eu pedi e perdi um pouco de paz. Interiorizei algo que não consegui ainda conquistar. Me disseram que não me cabe ter. Eu perdi o sentido da vida. Escapou entre os dedos, escapou sem eu perceber e minha escolha ajudou a afastar. Minhas escolhas me fizeram parecer confuso e falso, parecendo superficial. Será que irei um dia encontrar? Meu medo, olhando pela janela é não me ver pertencente a esse mundo, não merecedor de tal sentimento que tanto respeito e quero para me completar, para me fazer ter sentido. 

pro dia nascer feliz


O passado dependia de um futuro que almejávamos. O futuro a chance de viver o que o passado não pôde ser. 

A chuva que cai me alegra e me acolhe em um sorriso de criança que brinca de imaginar na tela branca e cinza do céu. Mas a mesma água que atrapalha o horizonte como uma barreira úmida, também ajuda a lavar os olhos para enxergar. 

dia de cama


Tem dia que não dá vontade de sair da cama. Não é preguiça nem encosto, mas algo de dentro dizendo que o dia lá fora não será tão convidativo. Não deu outra… O tempo nublado, o frio e a chuva me confortam, como um cobertor de água que me acolhe. Mas a sintonia hoje com o mundo não desceu legal, não bateu bem. Como água fria para despertar na marra e um tapa na cara para cair a ficha da realidade. Hoje não fui bom, mas um dia que não fui bem, não fui boa companhia. Preferível que não tivesse posto os pés fora de casa.